O Maior Presente  
Ttulo original: Her Sisters Child



 


Digitalizao: Erika Santana
Reviso: 
















Resumo:

O amor por uma criana seria capaz de unir dois inimigos? 
 
Tentando superar o choque de saber que a irm, j falecida, tivera uma filha, a advogada Meg Jonas  prepara-se para enfrentar o pai de sua sobrinha em  um processo de custdia. Mas Adam Callahan tambm tem uma novidade, notcias ainda mais chocantes do que a inexplicvel atrao que Meg experimenta pelo mdico devastadoramente charmoso a quem pretendia desprezar...
Adam no est disposto a perder sua adorada filha pra ningum e para nada. Desesperado para salvar a pequena Amy, ele recorre  nica pessoa que pode ajud-lo. Adam sabe que  perigoso permitir a entrada de Meg em sua vida e na de sua filha, mas o perigo ser ainda maior se a mantiver afastada... 







CAPTULO I
N
o vou perder minha filha! Adam Callahan resmungou as palavras olhando para a janela do segundo andar do edifcio para o qual se dirigia. A luz do sol do dia de um final de abril ainda era forte, e estava certo de ter visto as persianas se movendo por trs do letreiro preto e dourado e do vidro cristalino.
Estaria sendo observado?
No ficaria surpreso se estivesse. No confiava em advogados. Teria sido sempre assim, ou a desconfiana havia comeado na semana anterior, quando recebera uma carta da srta. Meg Jonas, advogada da Filadlfia? No tinha importncia. No confiava naquela advogada e nas pessoas que da representava. Havia algo de estranho na carta, talvez um segredo, embora as intenes de seus clientes fossem claras.
Depois de parar a motocicleta junto ao meio-fio, Adam repetiu as palavras com tom determinado:
 No vou perder Amy!
A afirmao tinha a fora de uma ameaa e o poder d um juramento. Tambm havia desespero cm seu tom de voz, porque no conseguia esconder
 
outro temor ainda mais sombrio, um sentimento que o atormentava h algumas semanas, antes mesmo de ouvir pela primeira vez o nome de Meg Jonas. Havia mais de uma maneira de perder uma criana. Com a vida de Amy em jogo, tinha de agir de forma sensata. Precisava daquelas pessoas, mais do que gostaria de precisar de gente que ousava brigar pela custdia de sua prpria filha.
Se no necessitasse deles, poderia desprez-los como considerava ser justo e merecido. Contrataria um advogado e mandaria inform-los sobre o que deveriam fazer com o pedido de custdia. Mas, nas circunstncias atuais, e por pior que a situao pudesse ficar mais tarde, era necessrio que todos se unissem em torno de um s objetivo: o bem estar de Amy.
A nica pessoa que estava fora do panorama era a tal advogada. A mulher era um pesadelo, uma criatura gananciosa capaz de destruir vidas alheias em troca de seus honorrios.
Estava dez minutos atrasado para a reunio com a mulher. Enfrentara problemas no trabalho e tentara recuperar o tempo perdido acelerando forte na motocicleta, correndo riscos para manter o horrio estabelecido.
Mas de repente se rebelava. Ela que esperasse! No permitiria que a srta. Jonas e seus clientes : percebessem que estava assustado. Eles no tinham nenhuma base legal para reclamar a cus-! tdia de sua filha.
Sem pressa, retirou as luvas de couro e o capacete. Se Meg Jonas o observava de sua janela, veria um espetculo que jamais poderia esquecer...
 
Da janela do escritrio, atravs de um pequenino vo na persiana, Meg viu o desconhecido em roupas de couro negro removendo o capacete e sacudindo os cabelos pretos, ajeitando-os com os dedos.
Ouvira o ronco do motor alguns minutos antes. Nervosa com o atraso, aflita com a situao que estava vivendo, fora at a janela com a inteno de recuperar o controle e formar uma primeira impresso sobre Adam Callahan, examinando-o antes que ele tivesse uma chance de fazer o mesmo com ela.
O homem no tinha pressa. Por acaso no conferia a devida importncia ao encontro? A reunio era muito importante para ela e para seus pais. Dolorosamente importante...
Ele guardou as luvas no capacete e comeou a abrir a jaqueta de couro. Sem despi-la, revelou uma camisa azul que caa perfeitamente sobre seu peito largo. Quando se dedicou  cala de couro, descendo o zper lateral e exibindo uma cala cinza escura de corte impecvel, Meg experimentou um arrepio.
Sua irm Cherie estivera ligada quele homem. Devia t-lo amado, porque haviam tido uma filha. A situao no condizia com a personalidade de Cherie, mas se no havia cometido nenhum encano ao analisar as datas, os dois haviam estado juntos por cerca de um ano antes da inevitvel separao. Devia ser um recorde. Cherie nunca fora capaz de ater-se a algum ou alguma coisa por muito tempo. Nem a um homem, nem a um projeto, nem a um endereo.
1'or isso Meg e o pai haviam perdido contato com ela durante os meses cruciais da gravidez.
 
Por isso nm ficaram sabendo sobre a existncia da criana at seu pai ter recebido a carta de Adam Callahan na Califrnia duas semanas atrs. Mas Cherie estava morta...
Meg engoliu o n que se formava em sua garganta. Embora no tivesse culpa, jamais conhecera realmente a irm. Haviam passado meses, anos, em um determinado perodo, sem nenhum contato. E h seis meses tornara-se tarde demais para mudar a dinmica da relao. Cherie morrera. E de repente descobriam que ela tivera uma filha, uma menina que vivia com o pai, um ser desprezvel e baixo. A descoberta assumira para todos a proporo de uma segunda chance.
 Faremos por essa menina algo que jamais pudemos fazer por Cherie  Meg murmurou. Era quase uma prece. Uma orao para que tudo desse certo.
Como Adam Callahan receberia a ideia? Seria um i, alvio para ele entregar a criana para um casal de I avs amorosos? Ou Meg, o pai e a nova madrasta, Patty, teriam uma batalha pela frente? Patty, em particular, estava disposta a tudo pela criana.
Com o traje de couro negro dobrado e guardado no compartimento traseiro da motocicleta, Adam Callahan no parecia to sombrio e ameaador. As roupas que usava eram conservadoras e elegantes. Mas ento ele olhou para cima, para a janela, e havia tanta raiva em sua expresso que, pela segunda vez, Meg experimentou um arrepio. Sempre havia desconfiado de que o sujeito poderia ser perigoso. Representara um perigo para Cherie. Aparentemente, ele a envolvera em um
 
grave acidente de motocicleta com seus hbitos nada cautelosos, e no havia sido s isso. Que tipo de ameaa representaria para ela?
	Controle-se, Meg!  disse em voz alta.  Esta
 uma reunio de negcios, no um confronto. Ainda
no, pelo menos. Sou uma advogada representando
os interesses de meus clientes. O fato de um deles
ser meu pai... Oh, talvez devesse ter seguido meus
instintos e ficado fora disso. Estou envolvida demais
com a questo, e o envolvimento  pessoal.
Tentando recompor-se, olhou em volta para o escritrio de que tanto orgulhava-se. Atuava no campo h quase sete meses, desde que fora aprovada no exame da ordem da Pensilvnia no incio de setembro, mas a carteira de clientes crescia rapidamente, e j fora obrigada a recusar dois casos que teriam sido muito satisfatrios. Nada muito lucrativo, nada que envolvesse honorrios milionrios ou aparies sensacionais nos tribunais, apenas testamentos e questes patrimoniais envolvendo imveis e partilhas de bens, e um divrcio simples e rpido.
Mas aquele era o trabalho que sempre desejara fazer. Queria ajudar pessoas comuns com problemas corriqueiros. Sabia que os clientes estavam satisfeitos e a elogiavam sempre que podiam. A publicidade era mais que suficiente.
	Mas serei capaz de satisfazer papai e Patty?
E a mim mesma? Nunca tive a inteno de atuar
em disputas de custdia. Um caso como este 
completamente diferente do que costumo fazer, e
com meu envolvimento,..
 
Ouviu passos na escada e soube que eram de Adam Callahan. Linda, a recepcionista, havia ido embora meia hora antes. No devia ter sugerido uma reunio no final do dia, mas quisera ganhar tempo, e agora estava comprometida com o confronto.
Meg jurou a si mesma que no prejudicaria sua atuao profissional permitindo a interferncia
das emoes. Ajeitando a saia do tailleur azul, foi abrir a porta.
No era o que eu esperava.
Esse foi o primeiro pensamento de Adam quando ele e a advogada, Meg Jonas, trocaram um aperto de mo. Ela o recebeu com cortesia e ofereceu uma xcara de caf. Adam a aceitou, embora preferisse um usque puro, e surpreendeu-se admirando o tom rouco da voz macia. Seria sempre assim, ou a mulher estava tensa? Afinal, tambm experimentava um certo nervosismo.
E ela no era nada daquilo que havia imaginado. Rapidamente, comparou realidade e expectativas. Vinte e cinco anos, mais ou menos, quando esperava algum com mais de quarenta. Boca carnuda e rosada e olhos cinzentos, quando imaginara um rosto duro e inexpressivo amenizado pelo verniz profissional conferido pela experincia.
E linda. No esperava que fosse to bela. O rosto delicado era emoldurado por sedosos cabelos escuros, castanhos como a madeira no meio de uma floresta tropical, e longos, na altura dos ombros. O corpo gracioso podia ser adivinhado sob
o tailleur azul que sugeria elegncia e bom gosto.
 
Os lbios chamavam sua ateno. Eram parecidos com os de algum, uma pessoa importante.
Era evidente que estava nervosa, e gostaria de saber por qu. Enquanto servia o caf em duas xcaras de porcelana, ela se esforava para conter o tremor das mos.
Pela primeira vez em semanas, Adam no experimentou o intenso sentimento de desespero. Havia algo naquela mulher, algo que acalmava suspeitas e amenizava sua dor, algo que despertava nele o desejo de responder e confiar. Era insano. No fazia sentido. Mas, naquele momento, decidiu seguir o instinto e relaxou.
Ela retirava de um pequeno refrigerador uma .jarra com creme.
	Prefiro puro, por favor.
Mas ela j havia servido uma poro de creme em sua xcara e, num movimento automtico, pre-parou-se para repetir o gesto com o caf que seria dele. Era evidente que estava distrada, ou o teria escutado. Adam repetiu a solicitao e tocou a mo dela a tempo de det-la.
O contato foi estranhamente ntimo. Assustada, ela virou a cabea para fit-lo, e o sentimento percorreu seu corpo como uma corrente eltrica, for-ando-o a recuar rapidamente, como se temesse um princpio de incndio. O que estava acontecendo ali?
	No quer creme?  Meg Jonas repetiu chocada, como se nunca houvesse conhecido algum capaz de beber caf puro.
	No, obrigado.
	Acar?
 
	Tambm no.
	No. Certo. Bem, tambm no quero acar.  Estou comeando a entender porque tornou-
se advogada  eie comentou, decidindo amenizar a tenso que pairava no escritrio.
	O que quer dizer?
A mulher era mesmo desconfiada. Ou estaria com medo?
	Porque jamais teria sido uma boa garonete.
A recompensa foi muito maior do que poderia
ter imaginado. Meg Jonas riu, uma gargalhada deliciosa que lembrava mel quente, raios de sol e uma perfumada noite de vero.
	Voc descobriu meu segredo  ela disse.  Sou incapaz de servir caf.
	 evidente. Vamos, d-me essa xcara antes que a ponha em rbita.
	O qu?
	Pedi caf puro, sem creme ou acar. No precisa mex-lo por tanto tempo ou com tanto vigor.
S ento ela percebeu que movimentava a colher dentro da xcara como se praticasse um exerccio aerbico.
	Oh, sim... Desculpe. Quer que eu sirva
novamente?
	Mexer o caf no  o bastante para arruin-lo.
	No...  Ela sorriu. Depois suspirou, e
Adam testemunhou o retorno daquela expresso
atormentada.
Ela parecia triste, desanimada... Teria passado por algum momento difcil na vida pessoal? Uma perda importante, talvez?
 
No era de sua conta. No devia importar-se com a vida pessoal daquela mulher. E se ela estava nervosa, tanto melhor. Devia tirar proveito disso.
De repente, toda a hostilidade latente retornou com fora redobrada, suprimindo completamente a qumica que surgira entre eles.
	Onde esto os Fontaine?  indagou, igno
rando, a cadeira apontada por ela.  No deviam
estar aqui? E Cherie? Onde est ela? O que sig
nifica tudo isso? Preciso de algumas respostas,
srta. Jonas, e pretendo obt-las.
Droga!
Por que havia perdido a calma antes mesmo de entrarem no assunto? A resposta era clara. Sua filha. Amy tinha apenas um ano e dois meses de vida, e essa era a quarta vez que enfrentava a possibilidade de perd-la. Tinha todos os motivos do mundo para descontrolar-se, mas, infelizmente, no podia contar com um voto de solidariedade para vencer a batalha. Tinha de manter a calma.
A advogada sentou-se atrs da escrivaninha. Adam deixou a xcara sobre um mvel e apoiou as mos na mesa, inclinando o corpo.
No se arrependia pela postura ameaadora e hostil. Antes que ela pudesse responder ou reagir, ele continuou:
	Sua carta foi bastante breve. E carente de
fatos concretos, devo acrescentar. Tudo que sei 
que representa os pais de Cherie, e eles reclamam
a custdia de minha filha. Gostaria de saber mais.
Ele recuou e sentou-se, respirando fundo e tentando raciocinar, em vez de apenas agir e sentir.
 
Sentimentos podiam ser enganosos. A prova disso era o que sentira pouco antes, quando a tocara rapidamente.
	Em primeiro lugar  a sria. Jonas comeou
devagar, parando para beber um gole do caf闕,
tem algum representante legal neste caso?
No tinha. Mas devia blefar e dizer que sim? Adam optou pela verdade.
	Ainda no. Espero poder resolver tudo isso
de forma amigvel. Estou confiante com relao
 custdia de Amy e, para ser bem franco, tenho
outras prioridades neste momento, questes rela
cionadas ao bem estar de minha filha. Teria sido
melhor se os Fontaine houvessem me procurado,
mesmo que fosse atravs de uma carta. Por que
envolver advogados nessa histria, se ainda nem
nos conhecemos pessoalmente?
Meg Jonas sorriu, e ele se sentiu atrado pelos lbios carnudos e rosados. Lbios que no conseguia ignorar.
	No gosta de advogados, sr. Callahan?
	Eu no disse isso.
	Nem precisava dizer. De qualquer maneira, tem razo quando afirma que devo esclarecer alguns pontos. Para comear, meus clientes no se chamam Fontaine. Sua deduo  lgica e compreensvel, j que estamos falando sobre o pai dela, mas Fontaine era apenas o nome profissional de Cherie, um pseudnimo que ela comeou a usar aos cinco anos de idade, quando participou do primeiro concurso de beleza. Sou representante de Burt Jonas e sua esposa Patrcia.
 

	Jonas? Mas esse  seu...
	Exatamente. Burt Jonas  meu pai, Patty  minha madrasta, e Cherie ... Ou melhor, era minha irm caula.
	O que quer dizer com era?  E por que ela tinha os olhos cheios de lgrimas?
S podia ser um pesadelo. Outra tragdia? E o que era pior, outra ameaa ao bem estar de Amy. Se alguma coisa houvesse acontecido com sua parente mais prxima, quais seriam suas chances de sobrevivncia?
	Sinto muito  ela disse com voz rouca e embargada.  Li a carta que enviou a meu pai pedindo para ser posto em contato com Cherie.  evidente que ainda no sabe. Cherie morreu h seis meses em um acidente de avio no Caribe. Ela estava trabalhando numa campanha publicitria, e outra modelo, o fotgrafo e o piloto tambm faleceram. Meu pai sofreu muito. Ainda est sofrendo. Passamos um ano sem saber onde ela estava, o que fazia, como poderamos encontr-la...
	Cherie sempre foi assim. Tive o mesmo problema com ela em ocasies distintas.
	Ela era... inconstante  Meg concordou.  Sabemos disso. Enfim, semanas depois de minha irm ter feito contato conosco para dar notcias sobre seu paradeiro e sua carreira, fomos informados sobre sua morte.
Adam respirou fundo.
	Deve ter sido horrvel. Se at para mim  difcil...
	Sim, foi terrvel. Sr. Callahan, eu...
	Doutor  ele a corrigiu automaticamente,
os olhos perdidos na distncia.
 
	Dr. Callahan? Quer dizer que  mdico?
	Pediatra. Por que a surpresa?
	Bem, Cherie disse algumas coisas a seu
respeito...
Cherie falou sobre mim?  Foi a vez dele ficar surpreso. O envolvimento com a bela modelo durara apenas dois meses.
	Pouco  Meg admitiu.
	E nunca falou sobre Amy?
	No. At enviar aquela carta para meu pai h duas semanas, no sabamos que ela havia tido um beb. Foi mais um choque no meio de tantos outros proporcionados por minha irm.  O sorriso triste no alcanou seus olhos.

	Devem ter sido muitos  Adam concordou, imaginando que o maior choque ainda estava por vir, quando o momento fosse adequado.
	Sempre tive a sensao de que no a conhecia. Meus pais se separaram quando eu tinha oito anos. Cherie tinha trs.
Adam ouvia espantado. Advogados no desnudavam suas almas daquela maneira, especialmente para algum que estava do lado oposto a seus clientes. Mas era bvio que a situao era nova para aquela advogada em particular. Quanto a Adam...
	Eles decidiram que cada um ficaria com uma
das filhas. Fiquei com meu pai, e Cherie foi viver
com mame. Sempre me senti culpada por isso.
	Culpada?
	Fiquei em posio melhor do que a dela. No sei se Cherie lhe contou muito sobre sua infncia...
	Apenas fragmentos. Eram como peas de um
 
quebra-cabea que eu no conseguia montar, porque ela se recusava a fornecer a moldura.
	Minha me e Cherie sempre foram muito parecidas. Sempre em busca de um novo sonho, nunca se detendo por tempo suficiente para explicar a quem quer que fosse o contedo desse sonho. Minha me percorreu todo o pas levando Cherie com ela. As mudanas eram constantes, uma, s vezes duas por ano. A princpio meu pai ficou aflito. Quando ligava, nunca sabia se o telefone ainda era o mesmo. No podia prever se veria a filha caula durante as frias, ou se os planos seriam cancelados de ltima hora por causa de uma nova mudana. As vezes mame se esquecia de dar o novo endereo. A certa altura, acho que ele desistiu.
	Desistiu?
	Ele cimentou o amor que sentia por Cherie. Enterrou o sentimento para no sofrer mais.
	Entendo.
	Era terrvel. Meu pai  um homem sensato, organizado, enquanto minha me era...
	Era?
	Ela faleceu h alguns anos. Bem, digamos que no acredito mais naquela teoria sobre a atra-o entre opostos.

	No?  Estava pensando em Cherie. Em como a encontrara pela primeira vez naquele shopping na Filadlfia. Uma piada desastrosa do destino em alguns sentidos, mas no poderia dizer que preferia jamais t-la conhecido.
	Bem, talvez os opostos se atraiam no incio. Foi o que aconteceu com meus pais, e eles eram com-
 
pletamente diferentes. Mas a atrao  passageira, e logo o relacionamento toma-se insustentvel.
	Tem razo.
	Cresci sem conhecer minha irm, sem ver minha me. Foi estranho descobrir que Cherie havia tido uma filha. Como localizou meu pai? Ficamos confusos, especialmente porque usou o nome errado...
Adam compreendeu que chegara sua vez de revelar certos aspectos de sua vida pessoal.
Mas o instinto o impedia de falar. No mencionaria a doena de Amy, ou suas necessidades, pelo menos por enquanto. Teria tempo para isso, e o assunto era importante demais para correr o risco de ser mal interpretado. No confiava naquela advogada, lembrou com firmeza. Apesar da graa com que ela admitia ser incapaz de servir um caf, ou de ter conversado com ele como se o conhecesse h muito tempo.
Alm da superfcie agradvel, ela devia ser exa-tamente como seu ex-colega de escola, Garry, que seduzira sua namorada e depois rira ao ser desmascarado, dizendo que Adam devia ingressar no mundo real. O homem tornara-se uma celebridade no mundo legal.
	Quanto mais culpado o cliente, melhor para
mim  ele costumava dizer.  Esses so os que
pagam melhor.
Meg Jonas devia ser gananciosa como todos os seus colegas de profisso.
	Precisava entrar em contato com Cherie 
disse, evitando fornecer detalhes.  Mas no sa
bia como. Tentei a antiga agncia de modelos, mas
 
eles no sabiam onde ela estava e nem queriam saber. No era um estabelecimento dos mais respeitados ou conceituados. Pensei em tentar outras agncias, mas conclui que seria perda de tempo. Depois do nascimento de Amy, e at antes, Cherie optou por uma trajetria diferente. E descendente.
	Eu sei. E foi esse conhecimento que fez a morte dela ser menos difcil para papai. O fato de Cherie ter mudado de vida e conseguido recu-perar-se. Ela morreu fazendo o que sempre quis saber, a um passo do sucesso.
	Estava prestes a colocar o assunto nas mos de um investigador particular. Cheguei a pensar que ela podia estar vivendo nas ruas.
	Entendo. Tivemos o mesmo temor no passado.
	Um dia estava mexendo em uma velha agenda de telefones e encontrei uma anotao feita por ela. Eram alguns rabiscos quase ilegveis, mas felizmente pude decifr-los. "Papai em San Francisco depois do comeo de novembro", ou algo parecido, seguido por um endereo. Ela nunca o mencionava. No sabia se ainda tinham algum contato, mas era a melhor aposta que eu tinha, e por isso decidi tentar. Enderecei a carta ao sr. Fontaine, porque nunca imaginei que esse fosse um pseudnimo de Cherie.
	Na verdade, foi um pseudnimo no incio. Meu pai tornou o nome legal quando Cherie completou sete anos. Ele queria colaborar com a carreira de modelo da filha.
	E Amy se chama Amy Fontaine Callahan  disse, demonstrando que a menina era sua filha. Amy era uma Callahan e continuaria sendo sua filha.
 
Estaria a bela advogada tentando envolv-lo com sua atitude gentil e simptica? Certamente. No confiava nela. No podia esquecer essa desconfiana. Afinal, confiara em Cherie no incio. Acreditara em sua sinceridade e na aparente capacidade para controlar sua vida.
Elas no eram parecidas, apesar do lao de sangue. Tinham a mesma boca, mas era s isso. Cherie havia sido a modelo perfeita, produto de toda uma vida de treinamento e lies sobre como ser bela e sedutora, graas a todas as instrutoras a que a me a submetera ao longo dos anos. Aos vinte anos, quando haviam se conhecido, ela era linda, alta, dona de um corpo perfeito e de um sorriso encantador. A princpio mentira sobre sua idade, dizendo ter vinte e quatro anos.
Sim, Meg tinha a mesma boca de Cherie. Mas o restante era diferente. No era loura. No era to alta nem to esguia. O talleur azul cobria curvas femininas, e no poderia dizer que ela era bonita. Nos tempos atuais a beleza no era uma qualidade inocente, e no encanto natural de Meg Jonas havia uma inocncia inconfundvel.
Ei...
Adam conteve-se. O que estava acontecendo? A quem estava enganando? Inocente? A mulher era uma advogada! Exercia uma profisso capaz de atrair os oportunistas, cnicos e desonestos como o sangue atrai os tubares. E era irm de Cherie, apesar das diferenas aparentes. E estava tentando afast-lo de sua vida.
No. Meg Jonas no era inocente.
 
Talvez houvesse dito a verdade at aquele momento. Todo o sentimento que brotara de seus lbios, toda a tristeza que vira em seus olhos cinzentos... Mas era s um jogo, uma estratgia, um plano. O pai dela queria a custdia de Amy, e ela apenas representava o desejo do homem.
De repente entendia um pouco mais sobre os sentimentos de Burt Jonas. Ele encarava a neta como uma chance de recuperar a filha perdida. Sim, compreendia a fora dessa esperana. Mas Meg Jonas devia estar tentando conquistar sua simpatia a fim de fortalecer o lado dos Jonas, e isso era algo que no podia permitir.
Ele havia suportado aquelas semanas no hospital depois do nascimento prematuro de Amy, quando os mdicos ainda duvidavam de que ela pudesse sobreviver. Ele enfrentara o desespero quando Cherie desaparecera por quase trs meses com a criana. E ele havia ficado com a menina quando Cherie desaparecera mais uma vez, deixando apenas um bilhete preso  boi,sa de fraldas. "Fique com ela. No posso mais assumir essa responsabilidade."
Ele cuidava de Amy h nove meses desde que Cherie a abandonara; oferecia proteo, carinho e amor enquanto a via crescer e aprender todos os dias.
E ele tivera de analisar os resultados dos exames h quase cinco semanas, quando descobrira que sua menina estava gravemente doente...
 
CAPTULO II
M
eg ouviu a nota determinada na voz de Adam quando ele pronunciou o nome da filha. Se esperavam que o homem entregasse a criana sem uma boa luta, seu pai e Patty ficariam surpresos. Chegara a acreditar que o processo seria simples e rpido, mas agora, depois de uma semana de reflexo, mudara de ideia. O problema era que Adam Callahan era diferente de tudo que imaginara. Diferente de como Cherie o descrevera em uma das duas vezes em que conversaram sobre ele, h quase dois anos. O telefonema da irm ficaria gravado em sua memria para sempre. Ela surgira do nada depois de meses de silncio. Ligara de uma cabine pblica em um posto de gasolina de uma cidade no meio-oeste, um lugar cujo nome nem conseguia recordar. O estado devia ser Indiana.
Naquela noite ela falara com entusiasmo e alegria. Dissera estar apaixonada, enlouquecida de amor por um homem que andava em uma motocicleta e parecia ser perigoso e mau. Ela se referira ao sujeito por um apelido qualquer. Estilete? Navalha? Havia sido algo parecido.
 
 Ele >est encrencado com a lei, mas no me importo. O homem me leva a lugares que nunca imaginei existir, Meg! E me faz sentir arrepios. Minha carreira? No tem importncia. S quero estar com ele, viajando na garupa da moto, sentindo o vento... No me importo com mais nada. E nem ele...
Cherie voltara a falar sobre ele um ano mais tarde, e dessa vez com um pouco mais de controle. O tal sujeito acabara demonstrando ser pior do que o esperado. Quase a matara em um acidente de motocicleta, e depois a abandonara. Muitas coisas haviam acontecido. Amy, por exemplo, embora Cherie no houvesse tocado nesse assunto. Apenas comentara que os detalhes eram irrelevantes... mas que finalmente percebera que ele no ia mudar. Assinara um contrato com uma nova agncia de modelos, um estabelecimento srio e conceituado, e estava voltando ao trabalho. O tal namorado era passado.
Mas aquele namorado de Cherie no parecia ser o mesmo homem que via sentado em sua mesa. Oh, Adam Callahan era capaz de fazer uma mulher sentir arrepios, sem dvida, e tambm andava numa enorme motocicleta...
Mas as semelhanas terminavam a. Ele era mdico! No parecia ser do tipo que engravidava uma mulher e depois desaparecia, fugindo da responsabilidade. Na verdade, j havia percebido que ele no entregaria a filha sem antes brigar por ela. A tenso era to intensa, que temia perder o controle da situao. No sabia como relataria o encontro ao pai, em-
 
bora tivesse certeza de que ele e Patty estariam em San Francisco ao lado do telefone naquela noite, esperando por alguma notcia. E suspeitava de que Adam guardava um segredo importante, o mais potente ingrediente naquela estranha mistura emocional em que se transformara a conversa.
Estavam em silncio h mais de um minuto. Meg bebeu o caf apenas para ocupar-se, depois viu que ele a imitava pela mesma razo. Os olhos, quase to escuros quanto o lquido que ingeriam, sugeriam astcia, e ele estava pensativo, calculando.
Os pensamentos deviam ser dolorosos, a julgar por sua expresso. De repente sentia-se impelida a toc-lo, a tentar amenizar a tenso com as pontas dos dedos. Loucura! Seu envolvimento emocional no caso j era grande demais. Experimentar qualquer coisa alm de neutralidade por Adam Callahan seria um pesadelo!
Era melhor ignorar o que podia ler em seu rosto.
	Por quanto tempo tentou localizar Cherie? 
perguntou. Em seguida acrescentou:  No, espere!
Podemos retroceder um pouco mais? Quando perdeu
contato com ela? Ainda no consegui entender a
progresso desse relacionamento.
Ele riu.
	No creio que tenha existido uma progresso. Ou um relacionamento. S estivemos juntos por dois meses.
	Dois meses?  A informao era incompatvel com o que ouvira da irm, mas se Adam estivesse mentindo, no queria que ele percebesse que sabia.  Puxa!  exclamou, mantendo a voz neutra e convidando-o a continuar.
 
Adam voltou a falar, e Meg sufocou um suspiro aliviado. Ele no suspeitara de que o surpreendera mentindo, ou omitindo fatos, e assim teria tempo para pensar no significado dessa incoerncia de dados.
	Cherie desapareceu um ms depois de termos descoberto sobre a gravidez. Ela no quis nem pensar em casamento.
	E voc queria se casar?
	Sim, pensei em me casar... por algum tempo. Pelo bem de Amy. Mas depois percebi que seria impossvel. Por qu? O que Cherie lhe contou?
 Nada.  Nada que pudesse ser relacionado  verso de Adam, pelo menos.  No tive contato com ela nesse perodo.  E Cherie costumava mudar suas histrias com o passar do tempo. Talvez no fosse Adam Callahan o mentiroso ali...
No! Por que estava se esforando tanto para confiar nele?
	Ento, o que est...
	No estou insinuando nada  ela cortou apressada.  Lamento ter me deixado envolver por uma imagem estereotipada. Normalmente,  a mulher quem insiste em se casar e garantir segurana para um filho que no foi planejado, enquanto um homem lana mo de todas as estratgias para escapar do compromisso.
	Estava esquecendo que  uma advogada. Cinismo  seu nome do meio.  No voltara a pensar em Garry nos ltimos anos, mas era evidente que ainda no conseguira superar a traio.
	No  cinismo. E realismo. As estatsticas
 
comprovam o que acabei de dizer. E no gosto delas, se quer minha opinio pessoal. Bem... estou impressionada com sua responsabilidade. Melhor assim?
	Bem melhor.
Melhor para ele, talvez. Mas Meg estava horrorizada. Acabara de condecorar o sujeito verbalmente, expressando como mudava de opinio rapidamente, elevandoo em seu conceito. Em outras palavras, dera adeus aos ltimos resqucios de profissionalismo.
Um dos argumentos principais na estratgia para ganhar a custdia de Amy era afirmar que o pai biolgico da criana no tinha condies para criar uma filha. H menos de uma hora, a ideia havia parecido mais do que razovel. A imagem mental que construra a partir das palavras eufricas de Cherie servira de base para a construo de todo um projeto, e de repente via seus argumentos caindo por terra.
A realidade era diferente do louco devaneio de sua irm...
Tinha de mudar de assunto, antes que todo o caso fosse por gua abaixo. Conhecimento  poder. Precisava de fatos. Se pudesse ao menos deixar de prestar ateno a cada movimento de Adam Callahan, ao poder dos msculos definidos,  fora das mos...
No devia estar pensando nisso! No podia se deixar desviar do objetivo!
	Ento, o relacionamento no foi muito longo
 comentou, tentando determinar ao menos a
poca exata do envolvimento.
 

	No. Cherie sumiu, mas voltou implorando por uma segunda chance quando completava seis meses de gravidez.  Estava simplificando o relato. Cherie o abandonara duas vezes.  Eu a aceitei de volta. Tentei entend-la, e enquanto ela precisava de mim, enquanto a gravidez a impedia de realizar uma srie de coisas, tudo correu bem. Estive presente no momento do parto de Amy. Foi uma experincia inesquecvel... impressionante... aterrorizante.
	Aterrorizante?
	Amy nasceu prematura. Passou semanas no hospital, e no incio no tnhamos certeza de que ela sobreviveria.
	Eu no sabia.
Mas podia ver no rosto de Adam que o perodo havia sido difcil. Marcante. Quantos anos ele poderia ter? Trinta, trinta e dois... As linhas em torno dos olhos e da boca seriam mais adequadas a um homem mais velho.
	Passava o tempo todo no hospital  ele pros
seguiu.  Quando no estava trabalhando, estava
ao lado de Amy. Cherie no se interessou pela
filha. Na verdade, eu nem sabia onde ela estava.
Por isso comecei a fazer planos para criar a me
nina sozinho. Mas, um dia antes de Amy ser li
berada do hospital, Cherie apareceu para lev-la,
e passei quase trs meses sem saber o que havia
acontecido com elas. At o dia do casamento de
meu irmo, em julho do ano passado. Minha cu
nhada encontrou Amy deitada na cama do quarto
de hspedes da casa de meus pais, ao lado da
bolsa de fraldas. Havia um bilhete de Cherie preso
 
 sacola. Foi a ltima notcia que tive dela. Amy nunca mais esteve com a me.
	E voc esperou nove meses para tentar encontr-la?  Havia algo de inconsistente no relato, e descobriria o que era.
	Sim, eu...
	Por qu? Decidiu que tambm no pode assumir a responsabilidade de criar uma filha? Esperava que Cherie a aceitasse de volta?  Meg pressionou, tentando desequilibr-lo e descobrir a verdade.  O beb  como uma bola de pin-gue-pongue que pensa poder jogar de um lado para o outro?  isso, sr. Callahan?
Ela se calou e esperou pela exploso. Sabia que estava se deixando levar pela emoo, o que no era muito profissional, mas era o melhor que podia fazer. Melhor do que sentir pena do adversrio enquanto compreendia seu sofrimento.
Adam respirava fundo, tentando manter a calma. Era difcil preservar o controle depois de um ataque injusto como o que acabara de sofrer, mas, com esforo, conseguiu controlar-se.
	No tentei entrar em contato com Cherie durante nove meses porque no acreditava que ela tivesse algo de positivo a oferecer  filha.
	O qu? Ela era a me dessa criana!
	Sim, a me que desaparecia e voltava sem aviso prvio, a me que mudava de ideia com a mesma facilidade com que mudava de roupa, a me que no tinh*a planos para o futuro, nem mesmo para o dia seguinte. Mesmo que Cherie houvesse encontrado o sucesso que procurava e me-
 
recia como modelo, duvido que esse aspecto de seu carter pudesse ser mudado. Crianas precisam de estabilidade. Eu acredito nisso, embora sua opinio seja diferente. Quero dizer, deve ser, ou no estaria disposta a...
Adam parou, e Meg no conseguiu entender por que ele no completara a sentena. Sabia o que pretendia dizer, e mais uma vez teria de lutar contra a ideia de que ele estava certo. Estava mesmo disposta a tentar tirar uma garotinha do nico pai que ela jamais conhecera?
Oh, no! Estava se deixando envolver pelas artimanhas do adversrio. Adam Callahan queria faz-la enxergar os fatos de seu ponto de vista. S tinha a verso dele, e mesmo assim sem provas. As pessoas eram capazes de tudo quando lutavam por uma custdia, inclusive mentir, raptar os prprios filhos e ameaar a parte contrria. E onde estavam os fatos? Como poderia saber que ele era quem dizia ser? Meg Jonas, seja profissional!
	Enfim, isso tudo  irrelevante  Adam resmungou.
	O que  irrelevante?
	A questo sobre quem ficar com a custdia de Amy.
	Irrelevante?  Estava certa. O homem tramava algo diablico! Desde o incio sentira que ele guardava um segredo, algo importante para o caso. Era horrvel perceber que estivera perto de confiar nele, de se deixar enganar por seus truques. Sim, podia admitir agora... Chegara a pensar que poderia estar atrada por ele. Irritada,
 
levantou-se para andar pelo escritrio, como se assim pudesse dominar novamente o espao que era seu.  O que estamos fazendo aqui, se a custdia de Amy  irrelevante? Posso garantir, dr. Callahan, que sua opinio  muito diferente da de meus clientes. Meu pai e Patty consideram a questo da custdia de importncia vital, e no mudaro de ideia enquanto no tiverem uma soluo definitiva para o caso.
	Est enganada quanto  real importncia do assunto, mas no posso esperar que perceba seu erro. Ainda no.
	De que erro est falando?
	H algo que ainda no lhe disse.
	Realmente? Ento diga agora, dr. Callahan. Se existem fatos pertinentes ao caso, ento...
	Poupe-me do discurso legal, por favor. So mais de seis horas, e no quero falar sobre o assunto em seu escritrio. No  uma questo profissional.
	No?  Que tipo de jogo era o dele? Adam estava em p, to prximo que podia sentir o efeito poderoso de sua presena. O homem no podia estar pensando em seduzi-la para faz-la ceder... podia?
	No. O problema  pessoal. Podemos sair
daqui? Quero lev-la para jantar.
O que estou fazendo aqui? Por que concordei com esta loucura?
Adam podia ler seus pensamentos enquanto esperavam pelas bebidas em uma mesa de canto do restaurante italiano que ela sugerira. A princpio ela protestara com indignao profissional.
 
Jantar com ele? De jeito nenhum! Sem querer, Adam sorriu d lembrana e teve de cobrir a boca com a mo, fingindo coar o nariz.
Ela era muito... interessante... quando ficava zangada, decidiu, optando pela palavra mais segura. Erguia os ombros, tentando aumentar a estatura reduzida, e lanava mo de um discurso baseado principalmente em termos legais. Fora dos corredores do hospital, raramente ouvia tantas palavras com mais de duas slabas em uma mesma frase.
E no sabia como conseguira convenc-la. No se lembrava do que havia dito. S sabia que lutara com tenacidade por considerar a questo crucial... literalmente de vida ou morte. Ele e Meg Jonas tinham de superar a hostilidade causada pela disputa pela custdia, pois s assim poderia falar sobre Amy e sugerir que ela fizesse um grande sacrifcio por sua garotinha.
Bem, felizmente conseguira persuadi-la. Meg havia suspirado com ar resignado e sugerido a Trattoria do Lorenzo, indicando que ele deveria segui-la com sua motocicleta.
	Afinal, o que tem a me dizer, dr. Callahan? 
ela perguntou assim que os drinques foram servidos.
Guiado pelo instinto, Adam decidiu garantir uma atmosfera mais promissora antes de revelar o motivo de sua aflio.
	Vamos jantar primeiro.
Mas ela estava irredutvel.
	No. J esperei demais. Disse que tinha algo
a me contar, algo que mudaria toda a situao.
Quero saber o que , e no vou esperar nem mais
 
um minuto. Se no comear a falar, irei embora deste restaurante e s aceitarei novas visitas e interpelaes de seu representante legal.
	Tudo bem, tudo bem...  A mulher no es
tava blefando. No tinha nada a perder mantendo
o antagonismo. Ou melhor, pensava no ter nada
a perder. Porque ela podia perder Amy. E esse
era o nico trunfo que tinha. Mesmo que fosse
forado a revelar os fatos brutais antes do que
planejara, talvez ela pudesse compreender sua si
tuao. Ele respirou fundo para pronunciar as pa
lavras que eram sempre amargas e dolorosas. 
Amy est doente, srta. Jonas. Ela tem leucemia.
	Leucemia!
	Minha filha precisa de um doador de medula, e se encontrarmos algum compatvel, talvez ela possa... ela poder se recuperar completamente. Mas se no houver ningum... Por isso tive de procurar por Cherie com tanta urgncia. No sou compatvel, e no encontramos nenhum doador em minha famlia. Todos ns fomos submetidos a exames quando soubemos do diagnstico, mas foi intil. Cherie era nossa nica esperana. Mesmo que no fosse a melhor me do mundo, sei que ela no teria se recusado a ajudar a filha. Mas agora ela est morta e... honestamente, srta. Jonas, no vou passar muito tempo chorando por sua irm, porque nunca nos amamos o bastante para isso, mas se perder minha filha...

	Acalme-se, dr. Callahan. Ele respirou fundo.
	Cheguei a perder as esperanas quando me
 
deu a notcia sobre a morte de Cherie em seu escritrio, mas depois me dei conta de que... Bem, voc e Cherie eram irms. Estaria disposta a fazer os exames necessrios e doar parte de sua medula para minha filha, caso seja compatvel?
 
CAPTULO III
P
apai, desculpe-me pela hora. Sei que est esperando por este telefonema h algum tempo  Meg disse ao telefone logo depois de entrar em casa naquela noite. O pai a atendera ao primeiro toque. E no escondia a ansiedade.
	Fale de uma vez, Meggie. Como foi o encon
tro? Ele  como imaginvamos?
Duas perguntas difceis, embora esperadas. Tinha as respostas prontas, mas de repente sentia a garganta seca. Mantendo o telefone sem fio entre o ombro e a cabea, caminhou at a cozinha do apartamento de um dormitrio para servir-se de um copo de gua mineral. Enquanto apanhava o copo e a garrafa, ela falava:
	No, ele no  como espervamos. Ainda no posso fornecer muitos detalhes...
	Por qu? Est ligando do escritrio? O homem ainda est a?
	No, papai. Estou em casa. Sozinha.
	Ento, por que no pode falar?
	Porque quero ser cautelosa. A situao ... mais complexa do que havamos percebido. Mui-
 
to mais.  Vou precisar de alguns dias antes de poder falar claramente sobre o que est acontecendo.
Houve um estalido do outro lado da linha, e a voz clara de Patty soou em seu ouvido.
	Meg, acho que seu pai est fazendo as perguntas erradas. Precisamos saber... Esse tal Cal-lahan  o sujeito desclassificado que imaginvamos? Voc esteve com Amy?
	No, eu no a vi. Ela estava com a me dele.
	Me? Homens como ele no tm me! Quero dizer, talvez tenham, mas duvido que seja algum a quem se possa confiar um beb.
 Ele no  o homem que est sugerindo, Patty. E se for, tambm  um excelente mentiroso.
	 claro que ele mentiu! Como  comum entre os seres de sua espcie.
	Ele no vai abrir mo de Amy com facilidade. No sei nem se...

	Mas podemos vencer, no? Somos os avs da criana. Temos segurana financeira, e vou desistir do trabalho assim que Amy estiver conosco. Quero dedicar-me inteiramente a ela. Depois de tudo que Cherie disse sobre esse sujeito... Meu Deus, no quero nem pensar no que essa pobre criana est passando.
	Nem eu  Meg respondeu, mas por razes distintas.
Depois de escapar de meia dzia de perguntas insistentes, ela finalmente conseguiu encerrar a ligao, exausta pelo esforo de esconder o que
 
sabia. No assustaria o pai e Patty com o espectro da doena de Amy.
Ainda no. No enquanto no tivesse certeza de que Callahan dizia a verdade.
No sabia por que a necessidade de confiar nele causava to forte conflito interno. Seria seu instinto profissional? Ou a cautela tpica dos advogados? Passara anos ouvindo os mesmos conceitos na escola de direito e os colocava em prtica diariamente no trabalho.
At mesmo uma simples transao imobiliria podia ser uma mina de problemas. As pessoas mentiam. No ms anterior salvara alguns clientes de entregarem todo o dinheiro que haviam poupado durante anos a um homem que tentava vender uma casa que nem era dele. E o tal corretor era sofisticado, atraente e agradvel.
Sim, o mundo estava repleto de gente que mentia, e por dezenas de razes diferentes. Ganho financeiro, autopreservao, sexo fcil... Seria apenas o instinto profissional que a levava a temer que Adam Callahan fosse mais um deles?
Inquieta, terminou de beber a gua e foi o banheiro para lavar as mos. Diante do espelho, notou que o rosto estava corado demais.
Recorrera a um copo de vinho durante o jantar na tentativa de manter a calma enquanto discutiam a doena de Amy. No funcionara. Mas sabia que no era o vinho o responsvel pela cor em seu rosto. Era Adam Callahan.
No conseguia lembrar quando outro homem tivera efeito semelhante sobre suas emoes. E
 
no era apenas a aparncia de Callahan, porque nunca fora suscetvel  beleza fsica. O que seria? A aparente fora de sentimentos? A determinao? Sua maneira de ouvir com ateno e interesse?
	Droga!  resmungou irritada.  Ele conse
guiu o que queria. Engoli cada palavra que ele
disse e comecei a trat-lo como se fosse um heri.
E o rosto no era o nico sinal de desequilbrio. Os olhos brilhavam mais intensamente, e os lbios pulsavam como se houvesse sido beijada.
Ningum a beijara.
Mas desejara ser beijada.
Era melhor ser honesta. No final da noite, mal conseguira desviar os olhos daquela boca sensual enquanto ele falava. Depois, quando se despediram na porta do restaurante, depois de acertarem um encontro no dia seguinte para a realizao de um exame de sangue no hospital, chegara a inclinar-se na direo de Adam antes de conter o impulso.
Talvez ele no houvesse notado. Era o que esperava. E pelo menos conseguira convenc-lo a permitir que conhecesse Amy no dia seguinte, depois do exame de sangue.
Adam no desejara o encontro. Por qu? Era estranho, no? Suspeito...
	No confio nele!  disse- para o espelho. 
No mesmo!
Pronunciar as palavras com tom confiante era quase como recuperar o controle, e j podia sentir o corpo superando a horrvel tenso. Para sua surpresa, depois de uma xcara de chocolate quente e do ltimo jornal na tev, conseguiu dormir profundamente.
 
Adam a esperava na porta do departamento de patologia clnica do hospital onde ele trabalhava, e estava impaciente. O alvio que demonstrou ao v-la foi evidente e sincero, como se houvesse temido esperar em vo.
	Devi t-la prevenido sobre a dificuldade
para estacionar  disse, sem perder tempo com
cumprimentos.
	Sou uma mulher adulta. Consegui encontrar uma vaga.
	timo. E o que pensa sobre agulhas?
	Oh, so timas... desde que estejam furando um pedao de tecido.
	Talvez no seja to adulta, afinal.
Os dois riram. Ele a tocou no ombro, e Meg sentiu o calor atravs da malha fina da blusa. A percepo que tinham um do outro era quase dolorosa. Nunca imaginara poder experimentar to intensa mistura de emoes por um homem. Simpatia. Desconfiana. Atrao...
- Por aqui  ele indicou.  Vamos colher o sangue para o exame. Voc vai sentir uma picada, mas se no olhar...
	Acho que vou sobreviver, dr. Callahan.
	Ser que podemos usar nossos nomes de ba-tismo, por favor?
	Considera essa deciso sensata? No devamos...
Ele parou e segurou seu brao. No devia estar
to abalada com um gesto simples e comum, mas estar perto dele era o bastante para perturb-la.
	Escute, se est falando sobre a questo da
custdia e o fato de estarmos em lados opostos
 
\ de um campo de batalha... Por favor, deixe esse f assunto para outra hora. No tenho condies de discuti-lo agora. Quero que minha garotinha viva, e nada  mais importante para mim. E para voc tambm, imagino. Afinal, Amy  sua sobrinha. Nunca pensa nesse aspecto da questo?
	E claro que sim!
	Ento, faa-me um favor. Vamos fingir que somos amigos. Pelo menos neste momento, estamos do mesmo lado, apesar de tudo que pode acontecer mais tarde. Preciso de voc, Meg. Amy precisa de voc.
	Eu... eu sei.
	E se for uma doadora compatvel, ento vai precisar de mim. Ou de algum que possa apoi-la. A recuperao no  muito simples.
	No tenho nenhuma informao sobre o processo. Ontem  noite s conversamos sobre o exame de sangue.
	Talvez seja melhor deixarmos os detalhes para mais tarde.
	Est me assustando.
	Desculpe. No era essa minha inteno. S quis dizer que devemos esperar pelo resultado do exame, porque se no for compatvel com Amy...
	Tem razo. Vamos dar um passo de cada vez.
Adam ficou na sala de espera, enquanto Meg 
submetia-se  coleta de sangue- para a realizao dos exames. O processo foi rpido, embora um pouco dolorido, mas eia se distraiu lendo os cartazes bem-humorados espalhados pelas paredes. Um deles dizia: "Eu costumava viver um dia de cada vez, mas recentemente fui atacado por uma semana inteira!"
 
Logo a enfermeira colocou um esparadrapo em seu brao e sorriu.
	Pronto. O resultado estar disponvel em uma semana, talvez dez dias.
	Certo. Obrigada.
Ao v-la sair da sala, Adam levantou-se.
	No ouvi nenhum grito.
	Eu gritei em silncio. Achei que seria melhor poupar os ouvidos daquelas pessoas l dentro.
	Quanta considerao!
	 verdade. Bem, o que importa  que sobrevivi. E o resultado estar pronto em...
	Eu sei.
	E claro. Estou sempre me esquecendo de que voc  mdico.
	Otimo. Vamos esquecer tudo isso, est bem? No podemos fazer mais nada enquanto no tivermos os resultados. Ainda quer ir conhecer Amy?
Ambos sabiam que era importante, mas, por um acordo tcito, tentaram fingir que no era. Seria como uma visita qualquer, uma visita que ambos desejavam, em vez de uma ocasio que ele preferia adiar ou evitar. Meg ainda no conseguia entender o motivo de sua relutncia.
O belo dia de primavera contribua para a farsa que encenavam.
	Podemos usar seu carro? Na volta, se for
possvel, voc me d uma carona at aqui. Esta
cionei o automvel numa vaga bem prxima do
edifcio, e se tir-lo de l, terei de dar dezenas
 
de voltas antes de conseguir par-lo outra vez para o planto noturno.
	Veio de carro? E a motocicleta?  A pergunta soou como uma acusao, levando-a a perceber que ainda tentava agarrar-se  imagem do mau rapaz criada pelas palavras de Cherie meses antes.
	Usei a moto ontem porque estava com pressa. Queria fugir do trfego de final de tarde. Mas quase no saio com ela. Acho que a conservo como uma relquia de minha juventude rebelde.
E ela caiu na armadilha.
	Foi um jovem rebelde?
	E o que espera confirmar, no? Assim teria uma base slida para o processo de custdia?
Silncio.
	Tem razo. Desculpe-me. Mais um perodo de silncio.
	No vai ser fcil, no ?  ela indagou.
	No.
Estavam atravessando o estacionamento. O som dos passos ecoava alto, e Meg tentava pensar em algo neutro e seguro para dizer. Como no conseguiu imaginar nada, decidiu que falar sobre Amy seria o melhor caminho.
	Amy passa muito tempo com sua me?
	Desde que descobrimos sobre a doena, sim. Ela costumava passar algumas horas por dia na creche, e durante o resto do tempo minha me cuidava dela, mas agora a escola infantil deixou de ser segura.
	Por qu?
	Amy no tem muita resistncia a infeces. No deve ser exposta a nenhum tipo de contgio,
 
especialmente ao contato com outras crianas. Sabe como eles trocam vrus e bactrias quando ainda so pequenos. Ento ela no pode brincar com outras crianas?
	Por enquanto no. Alm do mais, ultimamente ela no tem tido muita energia. Por isso suspeitamos de que havia algo errado. Amy era ativa e alegre, mas aos poucos foi...  Ele balanou a cabea, incapaz de concluir a frase.
	Adam?
	Hum?
Queria dizer algo que pudesse ajud-lo. As palavras pareciam mais seguras que o contato fsico, mas no conseguia encontr-las, e toc-lo era uma perspectiva mais perigosa a cada instante. Mas a ideia era to natural, to adequada!
Sem saber exatamente como havia acontecido, Meg surpreendeu-se passando um brao em torno de sua cintura. A resposta foi imediata. Adam apoiou o brao sobre seus ombros e puxou-a para mais perto.
Muito perto. A tia e o pai de Amy. J no sabia quem estava confortando quem. Talvez precisasse dele. Queria apoiar-se em seu corpo e sentir o calor que a aqueceria. Queria deslizar a mo por suas costas e descobrir a forma dos msculos firmes. Queria falar com ternura, dizer que tudo daria certo, que Amy ficaria bem, porque ela, Meg, estava ali a seu lado e trocariam a fora necessria para superar tudo que o futuro reservava, por pior que fosse.
Mas isso era impossvel. Experimentava sentimentos incoerentes por conta das circunstncias. O que viviam, o que estavam prestes a compar-
 
tilhar... sim, era algo muito intenso, mas no eram e jamais seriam amantes. Eram apenas a tia e o pai de Amy,  tinham em comum apenas a preocupao com aquela criana.
E cuidar de uma criana podia tornar um homem implacvel. O pensamento penetrou em sua mente como se fosse sussurrado por uma voz maligna.
Adam sentiu a tenso nos ombros de Meg e teve de lutar contra o impulso de acalm-la com uma carcia mais ntima. O que estava acontecendo? Como podia desejar aquela mulher?
O problema era que, como um homem adulto e saudvel, nem sempre tinha controle sobre certos impulsos. Contrariando o bom senso e a razo, desejara-a desde o primeiro encontro, e o sentimento no desaparecia. Pelo contrrio. Era fortalecido pelo passar do tempo.
	Onde est seu carro?  ela perguntou, afas-
tando-se enquanto falava.
O movimento no o surpreendeu. Qualquer que fosse a concluso  que havia chegado sobre o contato fsico inesperado e inoportuno, Meg decidira interromp-lo.
	Na rea reservada para os mdicos. Bem ali.  E apontou para um veculo verde.
	O meu est perto da sada. Talvez seja melhor seguirmos em carros separados e nos encontrarmos na casa de sua me.
	Se prefere assim...  No faria presso. Precisava muito dela, e por isso no podia correr o risco de contrari-la.  Acha que pode encontr-la? A casa de meus pais fica afastada do centro da cidade.
 
	D-me o endereo, e usarei o mapa para encontr-lo.
	Por que no me segue?
	Porque prefiro usar o mapa.
	Teimosa.
	No. Gosto de mapas, s isso.
	Gosta de mapas?  Que tipo de comentrio era aquele?
Meg encolheu os ombros e encerrou a discusso.
	Est bem, faa como quiser  ele concordou.
Depois escreveu o endereo da casa dos pais num
pedao de papel que tirou do porta-luvas.
Beth Callahan os recebeu na porta. Adam passara a noite ali com Amy depois do encontro e do jantar com Meg, e por isso sua me estava informada sobre os ltimos acontecimentos. As duas mulheres agiram com cortesia distante ao serem apresentadas, e Beth os levou  sala e relatou rapidamente a manh da neta. Normalmente, teria sido mais simptica com qualquer mulher que o filho levasse a sua casa.
	Ela acordou h dez minutos. Amy dormiu por quase duas horas e est sentada no bero, brincando. Parece contente, mas ainda est um pouco cansada. Tenho certeza de que dormir novamente mais tarde. Se no se importam, vou sair para fazer umas compras, e depois irei  casa de Tom e Julie para ver os gmeos  ela avisou, referindo-se ao filho e  nora que haviam se casado em julho.
	Vai cuidar das crianas? Adam perguntou.
	No. Tom conseguiu convenc-la a contratar uma bab, mas no vejo meus netos h duas se-
 
manas. Os bebs crescem depressa. Eles j tm trs meses, e quase no vi o tempo passar. Tenho estado to ocupada!
Ocupada com Amy.
Ela no dizia todas as palavras, mas Adam comeava a preocupar-se. Sua me parecia cansada e estressada. Criara oito filhos, sendo que ele havia sido o terceiro, e tinha o direito de gozar de. uma certa liberdade agora que todos eram adultos. No precisava dedicar quatorze horas do dia  neta, como acontecia desde que a leucemia de Amy fora diagnosticada. Mas sempre que tentara mencionar a palavra "bab", ela reagira com violncia espantosa.
	Certo, me. Faa suas compras e no tenha pressa. S voltarei ao hospital s oito da noite.
	O que significa que vai passar a noite toda trabalhando, certo?
	No se preocupe. Sempre consigo cochilar um pouco na sala dos mdicos.
	Desde que tenha sorte. Casei-me com um mdico, lembra? Conheo o ofcio.
Ela pegou a bolsa, ofereceu um sorriso plido a Meg e saiu.
Adam no estava surpreso. Sabia que a me sentia por Meg Jonas o que ele devia estar sentindo. Ou melhor, o que ele sentia, corrigiu apressado, desde que pudesse esquecer a louca atrao fsica entre eles.
;" Venha conhec-la  disse.
	Ela est l em cima?
	Sim, no bero, como minha me disse h pouco.
Nenhum dos dois precisava mencionar o nome
de Amy.
 
Com o corao batendo forte no peito, Adam indicou o caminho para mostrar sua garotinha  mulher que poderia salvar sua vida... a mesma mulher que tambm planejava fazer de tudo para arrancar Amy de seus braos.
 
CAPTULO IV
 

A
my estava sentada no bero, cercada por trs ou quatro brinquedos macios que exibiam sinais de uso e amor. Ela no os viu entrar. Estava atenta ao movimento da cortina que era impulsionada pela suave brisa de abril e, ocasionalmente, encobria o rosto de uma boneca colocada sobre a prateleira ao lado da janela. E Amy estava rindo.
Meg teve certeza de jamais ter ouvido som mais encantador. Todas as meninas riam daquele jeito? No tivera muito contato com crianas pequenas.
	Condeu!  Amy disse ao ver a cortina se mexer. Rindo, ela bateu palmas.  Cad a mu-neca? Condeu! Cad?
	L est ela!  Adam exclamou com tom triunfante.	,,
Amy virou-se e, ao v-lo, sorriu. Seu rosto ilu-minou-se como uma rvore de Natal numa noite de dezembro. Oh, sim, aquela criana era amada!
	Papai!  exclamou, agarrando-se s barras
verticais do bero para pr-se em p. As pernas
se negaram a obedecer, e ela continuou sorrindo,
ignorando o fracasso.  Papai!
 
Lutando contra as lgrimas, Meg viu Adam atravessar o quarto com os braos estendidos. Aquele no havia sido um movimento desordenado de uma criana que ainda no conseguira aprender a andar. Era a fadiga dos msculos enfraquecidos pela doena. E apesar do rosto alegre e doce, Amy parecia doente. Era magra e plida, muito menor do que as meninas de sua idade, e no tinha cabelos. Adam tomou-a nos braos e tirou-a do bero para um abrao apertado.
E mesmo doente, Amy continuava sorrindo, revelando um esprito radiante e entusiasmado.
	Esta  Amy  Adam apresentou ao virar-se.
	Amy, esta ... minha amiga Meg  concluiu,
deixando claro que no pretendia revelar o pa
rentesco entre elas.
	E um prazer conhec-la, meu bem!  Ao
ver o sorriso nos lbios da criana, teve medo de
no conseguir controlar a emoo. Filha de Cherie!
	Por que no diz a ela...
	No creio que seja sensato. Ela ainda  pequena demais para compreender laos de sangue.
	Tem razo. Mas por que tenho a impresso de que vai tentar manter-me afastada? Do que tem medo, Adam?
	 evidente, no? Se passar a am-la como eu a amo...
	O amor nem sempre  sinnimo de posse. No seria melhor para ela viver cercada de amor, independente das fontes? J nie disse que o bem estar dessa criana  a nica coisa que importa neste momento, e conseguiu convencer-me. Sendo
 
assim, no podemos... no sei... dar uma volta no parque, talvez? S para que eu tenha algum tempo com ela? Juro que vou me esforar para no tocar em certos assuntos delicados.
Adam no teve tempo para formular uma resposta. Amy compreendeu uma palavra chave e comeou a pular nos braos do pai.
	Paque! Paque! Quelo paque! Paque! Cadeila, cadeila!
	Meu Deus, o que foi que eu disse?  Meg indagou apavorada.
Adam riu.
	Ela adora ir ao parque, e temos uma dessas cadeiras que pode ser presa s costas de um adulto como uma mochila. Amy adora passear sentada em sua cadeira.
	Ento, o que estamos esperando? O dia est lindo e... Oh, Adam! Acho que estou esquecendo... Ela pode sair?
	Sim, o ar fresco e o sol fazem muito bem a ela.
	Ento, por favor, vamos lev-la ao parque!
	E claro...  Mas no conseguia disfarar a relutncia. Um momento mais tarde, ele repetiu com tom mais positivo.   claro que sim.
Deixaram a casa dez minutos depois e seguiram a p para o parque. Amy observava tudo por cima do ombro esquerdo do pai, e ele a carregava com facilidade espantosa, certamente uma habilidade conferida pelo hbito. Era evidente que pai e filha se entendiam muito bem.
Amy apontava tudo que via e ia citando nomes.
- vole! Pssalo! Cacholo! Calo!
 
Adam respondia a cada palavra com um comentrio claro e detalhado.
	Ela  adorvel!  Meg comentou impressionada.  E  fcil compreender porque fala to bem, apesar de ainda ser muito nova. Nunca pensei que algum pudesse realmente conversar com uma criana de um ano e dois meses.
	Eu conversava muito com ela no hospital.  preciso ter cuidado com prematuros, porque um rudo mais alto pode representar um estmulo excessivo e exaustivo, mas ela parecia responder ao som de minha voz.
	E claro que sim!
E quem no responderia? Rouca, mscula, profunda, sexy...
	...e eu tinha a sensao de que forjvamos um lao, embora no pudesse toc-la por causa do isolamento trmico.
	Deve ter sido difcil.
Adam mudou de assunto e comeou a relatar as travessuras que fizera no parque com os irmos durante a infncia.
	Uma vez fizemos uma montanha de neve sobre a ciclovia e ficamos escondidos esperando os ciclistas chegarem. No imagina como rimos com os tombos! Depois, durante a primavera, quase ateamos fogo no bosque de macieiras.
	De quem devo sentir mais pena? De sua me, ou dos vizinhos?
	De todos!  ele riu.  No ramos perversos ou mal educados. O problema  que ramos muitos e tnhamos diversos amigos, o que
 
tornava o grupo ainda maior. Estvamos sempre tendo ideias magnficas...
Estavam entrando no bosque das macieiras, e uma mulher parou para esperar que o cachorro cheirasse todo o terreno antes de escolher um local apropriado para suas necessidades.
	Meu bem, voc  muito parecida com sua
me!  ela disse ao olhar para Amy.
O animal decidiu que era hora de prosseguir com o passeio, e a desconhecida no viu a expresso perplexa de Meg.
	O que ela quis dizer? Aquela mulher conheceu Cherie?
	No. Ela apenas reagiu diante da semelhana entre voc e Amy.
	Oh...  Podia sentir o rosto queimando.  Sim,  claro. Ns trs caminhando pelo parque, como uma...
	Famlia  ele concluiu.  Papai, mame e filhinha. E ela estava certa. Amy  muito parecida com voc. A semelhana  ainda maior do que com Cherie. Ou comigo.
	Cherie no era loura. Ela tingia os cabelos.
	Agora conte-me uma novidade!
Enquanto caminhavam, Meg tentava entender
por que o incidente a perturbara tanto. A intruso de Cherie, talvez, trazendo a lembrana de questes a serem solucionadas?
	Como conheceu minha irm? Onde a conheceu?
	Num shopping. Mais especificamente, numa loja de sapatos.
	Por que fica to irritado quando fao per-
 
guntas? Acha errado que eu queira saber mais sobre a histria? Ela era minha irm. Vocs tiveram uma filha!
	No h nada de errado em sua curiosidade, mas no gosto de falar sobre o assunto. Houve um tempo em que no pensava nesse encontro como uma das melhores coisas de minha vida.
	Mas agora mudou de ideia?
	Tenho uma filha linda. Como posso lamentar qualquer coisa que tenha resultado em sua existncia? Amy  a melhor coisa que aconteceu comigo, apesar da me dela.
	Conte-me o que houve, Adam.
Pensando bem, ela tinha o direito de saber.
	Est bem  concordou. Depois passou os quin
ze minutos seguintes transformando as lembranas
em palavras enquanto andavam pelo bosque.
Amy havia ficado quieta e baixara a cabea, transformando-se em um peso morno em suas costas. Sabia que ela no havia adormecido, porque de vez em quando murmurava uma ou outra palavra, mas j estava cansada.
	Cherie queria que eu a ajudasse a escolher
entre dois pares de sapatos...  E assim a histria
havia comeado.
Lembrava-se do rosto sorridente, sedutor e lindo. Era bvio que ela j havia escolhido o par que levaria, no o mocassim azul de saltos baixos, mas o modelo italiano em couro vermelho com saltos muito altos e finos. E quem poderia contrari-la?
	Os vermelhos  Adam respondera.
S depois, quando o vendedor embalava a caixa
 
com os sapatos, ela exibira o par de muletas em que se apoiava para andar.
 No pode usar esses sapatos pendurada em muletas!
Mas ela rira da reao instintiva do mdico preocupado... o que s fortalecera o desejo de proteg-la. Depois havia explicado que no usaria as muletas por muito tempo. Tinha de apoiar-se nelas porque sofrera um srio acidente de moto com o ex-namo-rado, que insistira em dirigir embriagado, mas pelo menos amadurecera depois do episdio. Havia trabalhado como modelo, mas a profisso deixara de ser importante. Tinha vinte e quatro anos e estava pronta para viver no mundo real. Sapatos como aqueles eram apenas um pecado inofensivo.
Adam a convidara para tomar um caf. Pensando bem, podia comparar o impulso ao que o levara a construir a pilha de neve sobre a ciclovia anos antes. Inocente, bem-intencionado, mas perigoso. No era dominado por esse tipo de mpeto h muito tempo.
Uma semana depois do primeiro encontro, a situao havia se tornado sria. O problema era que metade do que Cherie dissera ao conhec-lo havia sido mentira. Nesse momento aprendera a dividir as inverdades em duas categorias: as deliberadas, como o fato de Cherie ter completado vinte anos recentemente, e as inocentes, coisas em que ela mesma acreditava quando as dizia, como quando afirmara ter amadurecido e estar pronta para viver no mundo real, como nas noites em que fizeram amor e ela havia garantido estar num perodo infrtil do ciclo. Droga! Como mdico, devia ter explicado que esse tipo de segurana no existia.
 
Cherie engravidara, e durante um ms depois de terem visto o resultado do teste a vida fora maravilhosa. Foram juntos  primeira consulta e tiveram a confirmao da data prevista para o parto atravs de um ultrassom. Depois ela abandonara as muletas... comeara a usar os sapatos vermelhos... e o ex-namorado aparecera jurando am-la, apesar de t-la abandonado depois do acidente.
 Foi quando sugeri que nos casssemos  Adam contou a Meg.
Cherie aceitara a proposta com entusiasmo. Adam passara trs dias tentando convencer-se de que estava agindo corretamente, mesmo que fosse apenas pela criana que logo chegaria ao mundo. Mas Cherie havia fugido. Duas vezes. Na primeira, sozinha. Na segunda, com o ex-namorado. Retornara trs meses mais tarde muito deprimida, referindo-se  gravidez como um transtorno que prejudicava sua silhueta e arruinava sua carreira.
Agarrara-se a Adam, mas ele sempre soubera que estava sendo usado. Era apenas algum que a alimentava, que a levava s consultas com o obstetra e a protegia de todos os males. Mas,  essa altura, j havia compreendido que o que sentia por ela nunca fora amor, mas um engano que no cometeria novamente.
Depois acontecera o parto prematuro e o nascimento de Amy. Mais uma reao imprevisvel
de Amy.
 Como posso me dedicar a uma criatura com um futuro to incerto? Seria suicdio emocional! Preciso me afastar dela.
 

	Mas voc se dedicou, Adam  Meg comentou emocionada.  Foi um gesto de coragem.
	No foi coragem. Eu no tive escolha, s isso. J percebeu que as coisas mais importantes da vida so muito simples?
	E verdade...
	Olhei para minha filha e senti que a amava. Foi isso.
Em alguns momentos invejara a capacidade de Cherie de distanciar-se emocionalmente. Ela desaparecera sem deixar pistas e, de acordo com as enfermeiras da UTI, telefonava de vez em quando para ter notcias da filha. Nem ele mesmo conhecia seu paradeiro. Imaginara outra reconciliao com o ex-namorado, mas nunca tivera certeza de nada.
- No entendo por que ela nunca falou sobre tudo isso conosco  Meg refletiu em voz alta.  Nem sobre o acidente, a no ser muito mais tarde, nem sobre a gravidez, nem sobre voc.
	Sobre mim? Mas voc disse...
	Eu me enganei. Deduzimos que... Quero dizer, eu imaginava, at cinco minutos atrs, que voc fosse o ex-namorado de Cherie, o que a envolveu no acidente.
	No, esse era um sujeito chamado Roy Ellis, mas Cherie o tratava pelo apelido. Navalha.
	Exatamente. E posso entender porque minha irm s falou nele e no acidente meses mais tarde. Sabia que ficaramos preocupados, ou teve medo de que a censurssemos. Mas por que nunca o mencionou, se deve ter sido a melhor coisa que aconteceu na vida dela?
 
Adam fitou-a em silncio por alguns segundos. Talvez ela nem se desse conta do que acabara de dizer. Mas Meg havia percebido, tarde demais. Estava mordendo o lbio numa reao embaraada e encantadora. Como ela poderia mover um processo de reclamao de custdia contra um homem que considerava corajoso, bom e generoso? Algum capaz de tentar salvar uma mulher irresponsvel e desequilibrada da falncia moral e financeira?
Mas Adam sufocou o sentimento prematuro de vitria. Haviam prometido que no tratariam do assunto por enquanto, e a questo no era to simples quanto faz-la entender que era um homem decente. Por isso voltou a falar sobre Cherie.
	Sabe como ela era. Os bons tempos comigo foram
quase uma fantasia, e relat-la pelo telefone no de
via ser parte do final que ela programara. Cherie
devia ter algum cenrio em mente. Talvez enviar as
fotos do casamento pelo correio, ou aparecer de sur
presa para visitar o pai e a irm usando uma aliana
na mo esquerda e levando nos braos um lindo beb
envolto em rendas e laos cor de rosa.
	Ela sempre gostou dos papis mais dramticos  Meg concordou.
	Por isso guardou segredo. Queria transformar uma dessas fantasias em realidade antes de revelar a verdade sobre os ltimos meses de sua vida.
	Ela voltou para Roy?
	Creio que sim. Cherie tirou Amy do hospital e desapareceu com ela, mas Roy no deve ter suportado a presena da filha de outro homem, e por isso sua irm deixou nossa filha na casa de meus pais no dia do casamento de meu irmo.
 

	Talvez Roy no tenha participado da deciso. Se no estou enganada, foi nessa poca que ela se mudou para Nova York e retomou a carreira de modelo. A maternidade no combina com uma profisso to glamourosa. Acho que vou telefonar para a agncia e verificar se podem me dizer alguma coisa. Pelo menos agora sei que perguntas fazer.
	E isso  muito importante para voc, no? Quer saber exatamente o que aconteceu com sua irm.
	Eu devo isso a ela. Na verdade, minha dvida  muito maior, e infelizmente no posso mais resgat-la. S estou tentando fazer o que ainda  possvel...
Estava falando demais. Qual era o problema com ela? Estava realmente fascinada por um homem que mal conhecia? Ou, apesar da imagem de profissional competente e sria, era ingnua e confiante o bastante para se deixar levar pelas emoes?
Haviam dado duas voltas no parque, e a pequena Amy adormecera com o rosto apoiado no ombro do pai. Pessoas comiam sentadas no gramado e nos bancos. Meg olhou para o relgio e, chocada, descobriu que passava da uma da tarde.
Adam notou o movimento.
 Temos de voltar  disse.  Fica para almoar conosco?
	No, obrigada.  Tinha um cliente marcado
 para as duas e meia, o que significava que poderia
aceitar o convite, embora sem muita folga. Por outro lado, o compromisso profissional era a desculpa perfeita para partir.
 
	Podemos preparar alguns sanduches.
	No posso.
	Ei, as coisas vo indo bem, no? Dissemos muito do que devia ser dito, e finalmente podemos relaxar um pouco. No acha que devemos tirar proveito disso?
Pararam de andar. At aquele momento, apesar de todas as revelaes sobre Cherie, mantiveram um ritmo cadenciado e constante, como se praticassem seu exerccio dirio. Mas de repente estavam parados sob uma macieira, sentindo o perfume adocicado das flores e prximos o bastante para se tocarem.
Meg sabia que ele estava pensando no transplante de medula e na conexo que se formaria entre eles, caso o processo fosse realizado. Mas o assunto a assustava, e no s porque seria submetida a um procedimento cirrgico complexo e delicado sob anestesia geral e de difcil recuperao.
No. Era a ideia de aproximar-se de Adam que a amedrontava. As emoes j eram intensas e volteis. As dela, as de Patty, as de seu pai, as de Adam. A ltima coisa de que precisava era desenvolver algum tipo de sentimento por ele.
	Ainda no  respondeu.  Estou muito perturbada com tudo isso.
	Por qu?
	No sei.	;j
Mas sabia, e ele tambm. Podia vera verdade J
na rigidez sbita do rosto bronzeado, na maneira \ como os olhos escuros tornavam-se menores, i. cheios de suspeitas. Havia uma conexo entre
 
eles. A mais antiga e fundamental ligao que pode existir entre um homem e uma mulher.
No tinha nada a ver com Amy e sua doena, nem com Cherie e seu passado. Nenhuma relao com processos de custdia ou tratamentos de controle do cncer. Era uma questo de qumica, uma questo fsica. E era o oposto de tudo que desejavam.
Adam teve a coragem de expressar a ideia em voz alta e, assim, iniciar a exploso que ambos j esperavam.
 O problema  este, no ?  E beijou-a.
Meg Jonas tinha vinte e seis anos de idade e j havia sido beijada antes. Beijos mais longos e profundos. Fora beijada no escuro e sob a iluminao suave de restaurantes elegantes.
Mas nunca experimentara um beijo como aquele, e nunca respondera com tanta intensidade. Foi apenas um roar de lbios, um gesto quase inocente em plena luz do dia no meio de um parque movimentado, mas podia sentir a corrente eltrica provocada pelo contato, a necessidade que se apoderava do corpo de Adam.
E apesar de ter sido breve, o beijo continha tantas promessas e possibilidades que, mais uma vez, sentiu-se assustada, tanto quanto teria ficado qualquer pessoa normal ao vr um fsforo aceso perto de uma pilha de explosivos.
my moveu-se e resmungou alguma coisa. Ela ainda dormia, mas o som delicado foi o bastante para encerrar o momento e impor a realidade. Aquela criana era o nico elo entre eles, a origem de todos os conflitos e a nica coisa que tinham em comum.
 
 Preciso ir embora  ela disse, olhando para o relgio com ar distrado.  Tenho um. cliente marcado para o incio da tarde, e vou acabar me atrasando se no correr.  E correr no era fora de expresso. Assim que cumprissem todas as formalidades, deixaria aquele parque como um animal perseguido por caadores.  Obrigada por ter me deixado conhecer Amy  continuou.  Ela ... uma criana encantadora. E tudo que eu quero ...  A voz estava ficando embargada.
Tudo que queria era um final feliz, com Amy curada e todos os envolvidos satisfeitos. Patty, seu
pai, Adam...
E eu, repetia um pensamento insistente. Tinha de considerar tambm os prprios desejos. E quais eram eles? De alguma forma, perdera de vista sua vontade.
Quanto a Patty, seu pai e Adam...
	Certo  ele decretou, como se uma demonstrao emocionada fosse ofensiva. Como se no acreditasse nessas emoes.  Tambm estou feliz por t-la conhecido. Entrarei em contato assim que tiver o resultado do exame de sangue.
	Obrigada.  Ela hesitou.  Escute, o que
aconteceu aqui...
	...no foi nada  ele cortou.  Loucura. E j terminou. Eu sei. Esquea. Eu j esqueci.
	Certo. Isto ... sim.  Por que no conseguia formular uma sentena coerente?
	Se est com pressa, no precisa esperar
por mim.
	Est bem. Obrigada, Adam.
 
Meg virou-se e teve de fazer um grande esforo para andar, em vez de correr. No conseguia nem lembrar por que encerrara o encontro demonstrando gratido. Pela permisso de deixar a cena como um ladro no meio da noite, talvez? Sem encontrar respostas, afastou-se sem olhar para trs.
 
CAPTULO V
O
 resultado do exame de sangue demorou oito dias. Oito dias de agonia, espera e incerteza para Adam, apesar de estar habituado a suportar tais perodos. Depois do nascimento de Amy, quando no soubera se ela sobreviveria. Depois de Cherie t-la tirado do hospital sem deixar pistas de seu paradeiro. Depois de ter enviado a carta para o pai de Cherie, sem saber sequer se a correspondncia seria devolvida ao remetente.
E agora estava ali, vendo o ms de abril caminhar para o incio de maio e as folhas das rvores da rua de Meg renascerem. Ainda mantinha o dedo sobre a campainha do apartamento depois de t-la tocado, ouvindo o som morrer l dentro.
Tinha notcias a transmitir, mas o sentimento que experimentava era diferente do que esperava. Para comear, ela no fora prevenida sobre sua visita. Entrara no carro e fora at l levado pela onda de emoo. Meia hora antes, a atitude parecera correta. Mas de repente tinha dvidas. Devia ter telefonado, contido os sentimentos e tratado a questo de um ponto de vista clnico.
 
Em vez disso, estava ali, o corao batendo forte e o corpo encharcado de adrenalina. Parara no meio do caminho obedecendo outro impulso para...
Droga! Esquecera no carro! Virou-se e olhou para baixo, alm da escada e para a rua, onde havia estacionado. Ento ouviu o som da porta e a voz de Meg.
	Adam!
	Meg, ol... Posso entrar?
	No esperava v-lo aqui  ela apontou constrangida enquanto se afastava para receb-lo.
Sabia qual era o motivo da inesperada visita. Submetera-se ao exame oito dias antes, e esperava ansiosa pelo resultado desde o dia anterior, quando tivera incio o prazo estipulado pelo hospital para a liberao do resultado.
No voltara a ter contato com Adam desde o dia em que foram ao parque com Amy. Pensara em telefonar e chegara a pegar o aparelho duas vezes, mas desistira. O potencial para conflito era grande demais.
Alm do mais, Adam ligaria, se tivesse algo a dizer.'E ali estava ele, em seu apartamento.
	No faa suspense  disse.  E v direto ao ponto, por favor.	.,
	O resultado  o que desejvamos. Voc  compatvel. Levando em considerao que o diagnstico foi rpido e esse tipo de cncer tem quase cem por cento de chance de cura hoje em dia, Amy vai sobreviver!
	Oh, Adam, isso ...
	Maravilhoso!
 
 Sim, era o que eu ia dizer. Sente-se convidou, segurando seu brao.
A reao ao contato foi imediata e chocante. Nos ltimos oito dias, sempre que pensara no beijo rpido que haviam trocado no parque, decidira que o gesto no tinha nenhum significado. Esperava que o sentimento provocado pelo breve instante houvesse desaparecido quando voltasse a v-lo.
Mas enganara-se. O sentimento estava ali, mais forte que nunca. E era mais do que uma simples atrao fsica.
Adam balanou a cabea.
	Esqueci algo no carro. Importa-se se...
	 claro que no. Fique  vontade.  Seria um alvio poder contar com alguns minutos de solido para recuperar a compostura.
Ele se dirigiu  porta. O telefone tocou no mesmo instante e Meg foi atender.
	Al?
	Meg?
	Ol, Patty. Desculpe-me por no ter ligado
de volta...
Adam identificou o nome quando j estava no corredor do edifcio. Patty. A esposa do pai dela e de Cherie. A mulher que queria tornar-se me de Amy. O telefonema parecia muito oportuno, mas devia ser apenas uma coincidncia. Meg nem sabia que ele iria visit-la! A suspeita era ilgica, mas, por alguma razo, no conseguia ignor-la.
Adam pegou a garrafa de champanhe que esquecera no carro e suspirou aliviado ao constatar que ainda estava gelada, quase como a comprara na loja.;
 
Champanhe? De onde havia tirado essa ideia? Champanhe servia para comemorar casamentos, formaturas, prmios e vitrias em geral. Ainda no havia cruzado a linha de chegada naquela louca maratona. A vida de Amy no estava mais por um fio, como antes, mas o caminho at a soluo definitiva ainda era longo. Teria de enfrentar o transplante de medula, o perodo de recuperao e a retomada gradual da sade e da disposio de Amy. E depois ainda teria de lidar com Burt e Patty Jonas.
Adam guardou a garrafa no carro e trancou a porta, dizendo a si mesmo que havia superado o tempo em que se deixava guiar por impulsos. No era mais uma criana. Em algum ponto do futuro poderia celebrar. Comemoraria a vida de uma garotinha linda, saudvel e feliz que seria dele. E a comemorao seria longa e eufrica.
Mas Meg Jonas no faria parte dela.
Ao aproximar-se da porta do apartamento, ouviu a voz dela e soube que a ligao ainda no havia terminado. Como Meg falava em voz alta, podia escutar cada palavra com clareza... e teria tentado ouvi-las, mesmo que ela falasse baixo, porque identificara o nome de Amy, e quando o assunto envolvia sua filha, era capaz de tudo.
 ...levar Amy para o Canad atravessando a fronteira de forma ilegal, ou algo parecido?  Ele ouviu, sentindo o sangue gelar em suas veias. Continuou atento e, depois de uma pausa breve, Meg continuou:  Nova Zelndia? Caramba, Patty, voc no  do tipo que faz as coisas pela metade!
 
 Mais uma pausa.  Oh,  claro que eu faria, se a situao exigisse. Mas escute...  Era evidente que Patty falava do outro lado. Est bem, est bem. Sim, voc tem razo. Deve ser fcil.
Adam sentiu as pernas fraquejarem e agarrou-se  maaneta da porta em busca de apoio. O movimento fez com que a porta se fechasse, tran-cando-o para o lado de fora e isolando o som da voz de Meg do outro lado.
Mas o que ouvira...
Aquela gente seria capaz de ir to longe?
E pensar que quase confiara em Meg. Se tivesse escolha, iria embora e s voltaria a v-la no tribunal, acompanhado de um bom advogado. Mas no tinha essa opo. Ainda precisava dela, mais ainda agora, depois de constatar que Meg Jonas era a doadora que salvaria a vida de Amy.
Tentando controlar-se, bateu na porta e esperou que ela fosse atend-lo.
	Desculpe  Meg pediu constrangida.
	Por qu?  Por planejar sequestrar sua filha?
	Por ter ficado a fora. Podia ter deixado a porta encostada. Pegou o que queria?
	No... devo ter esquecido no trabalho  improvisou.  No era importante.
O comportamento dele mudara, e depois da conversa difcil que acabara de ter com Patty, Meg tinha a sensao de estar no meio de um poo de areia movedia. As conversas com Patty repetiam-se diariamente h uma semana, sempre difceis, e s com muito esforo conseguira guardar segredo sobre a doena de Amy. Mas agora, depois de ter
 
recebido a maravilhosa notcia, finalmente pudera contar toda a verdade. Patty ficara chocada.
	Pobrezinha! Agora a quero mais do que nun
ca. Ela vai precisar de algum que possa estar a
seu lado o tempo todo, algum diferente de um
homem obcecado pela carreira que s consegue
algumas horas por semana para dedicar  prpria
filha. Meu irmo  cirurgio plstico. Sei como 
a vida de um mdico. Mas eu vou abandonar meu
trabalho para cuidar dela. E voc... Meg, o que
vai fazer por essa criana  emocionante!
Depois Patty voltara  questo da custdia, e Meg sentira-se aliviada por Adam no estar presente.
	Quer beber alguma coisa?  ofereceu.  Um caf?
	No posso ficar.
	No?  Algo de errado havia acontecido. O que quer que fosse, Adam parecia determinado a esconder fatos e sentimentos.  No temos que conversar?
	Algum do hospital ligar para voc. O mdico de Amy. Ele planeja marcar a cirurgia para breve. Quanto antes, melhor. Acha que pode liberar sua agenda e...
	Nem pense nisso, Adam  Meg o interrompeu, disposta a provar que a.sade de Amy era to importante para ela quanto para ele.  Estarei disponvel quando for necessrio.
	Vai precisar de alguns dias para recuperar-se. H algum que possa ir busc-la no hospital e ficar com voc em casa por algumas noites?
	Vou pensar nisso. Estou imaginando que meu pai e Patty acabaro vindo para c.
 
	 bem provvel. Mas, se no houver ningum, eu cuidarei disso.
	Oh, no! No se incomode...
	Eu fao questo.
As palavras soavam mais como uma ameaa do que como uma oferta.
	Meg, est acordada?
Meg tentou abrir os olhos na cama de hospital. Era difcil. Sentia-se tonta, sonolenta, dolorida e enjoada. As costas doam como se houvesse sido surrada.
Apesar da sensao de ter adormecido h poucos segundos, logo depois de o anestesista ter sugerido que contasse at dez, sabia que a cirurgia havia terminado. Parte de sua medula fora retirada.
	Meg?  A voz repetiu cruel e implacvel,
solicitando o impossvel.
Abrir os olhos? No tinha foras para isso.
	No... consigo...
	Trouxe um pouco de gua para molhar seus lbios.
Ah! Agua! Agora a situao era diferente. Com esforo, ergueu as plpebras e viu o rosto de Adam danando no espao como num filme sem foco. Ento ele passou um algodo molhado sobre sua boca e a viso tomou-se mais ntida, como o raciocnio.
	Obrigada...  murmurou.
	Tudo bem?
	Mais ou menos.
	Voc estava muito nervosa.
 
	Se soubesse que levaria mais de cem picadas
nas costas at extrarem uma poro de medula,
no ficaria nervoso?  indagou com voz rouca.
 E agora, como se sente?
	Cansada. E dolorida.
	Lamento que seus pais no tenham conseguido vir. Disse que o sr. Jonas estava enfrentando uma transao comercial particularmente difcil?
	Sim. Ele queria vir mesmo assim, mas eu o impedi. Minha amiga Joanne est fora da cidade e...
J disse que vou cuidar de voc. Agora descanse.
	E Amy? Devia estar com ela.
	Infelizmente, no posso.
	Por que no?  Teria havido algum problema com o transplante?
	Estou resfriado.  E levou o leno ao nariz.  Amy no pode ser exposta a nenhum risco de contgio.
Antes da cirurgia, estivera nervosa demais para notar os sintomas, mas agora via os olhos vermelhos e inchados. A voz estava fanhosa e seu rosto era plido* e ele limpava o nariz frequentemente.
	Mas... um simples resfriado...
	E o bastante para ameaar a vida dela. Amy
no ter resistncia ao contgio at que sua me
dula se instale e a contagem sangunea recupere
a normalidade. Estive com ela ontem, antes de
sentir os primeiros sintomas, mas felizmente usa
va mscara e luvas. Mesmo que os funcionrios
da UTI permitissem minha entrada, eu no iria
v-la. Sei que um espirro pode mat-la. Mame
 
est l, e ela e meu pai planejam revezar-se at que eu esteja curado.
	Pobrezinha!
	Ela adora a av. Estou dizendo a mim mesmo que Amy nem sentir minha falta.
	Mas no acredita nisso.
Ele balanou a cabea sem dizer nada.
Ao v-lo naquele estado, Meg compreendeu que no poderia mais representar o pai e a madrasta na batalha pela custdia de Amy. Seria errado tir-la de um pai to amoroso e dedicado. No diria nada sobre sua deciso por enquanto, porque Adam estava preocupado apenas com a recuperao de Amy, mas depois, quando pudessem discutir o assunto, exporia seu ponto de vista e todos os conflitos seriam superados.
Preferia no analisar por que essa possibilidade a deixava to animada. Em vez disso, murmurou:
	Obrigada.
	Por qu?
	Por estar aqui.
	Sou eu quem devo agradecer. Fez algo muito importante e generoso hoje. Salvou a vida de Amy.
E como poderia ter feito qualquer outra coisa?
	Mesmo assim, obrigado.
No era fcil expressar gratido. Por isso, usou o algodo para molhar os lbios dela mais uma vez, odiando dever tanto  algum em quem nem devia confiar. At mesmo a forte atrao que sentia por ela fazia parte da desconfiana. Odiava sentir-se arder cada vez que a tocava, cada vez que olhava para o corpo sinuoso.
 
E no devia desej-la! Mas o crebro e o corpo estavam em desacordo, e no sabia como restaurar o equilbrio entre as duas partes de seu ser.
A perspectiva de ter de cuidar dela durante os prximos dias era uma tortura. Era horrvel no poder estar com Amy. Pior ainda era saber que estaria com Meg. Ela sentiria dores e fraqueza, e o mnimo que poderia fazer seria ampar-la e ficar a seu lado. Faria a sopa, ajeitaria os travesseiros, alugaria fitas de vdeo...
E ficaria atento. Sabia que ela no conseguiria raptar sua filha durante a recuperao que ambas teriam de suportar. Pensando bem, cada vez que olhava para ela, custava a acreditar que Meg Jonas seria capaz de um plano to diablico.
Mas Cherie tambm havia parecido inocente e honesta. E Meg era irm dela. Alm do mais, ouvira a conversa pelo telefone alguns dias antes. Sempre havia sido um bom juiz de carter, mas dispunha de evidncias. O instinto apontava em di-reo contrria, enquanto a lgica insistia em lembrar cada palavra que ouvira com persistncia irritante. Devia confiar no instinto? Ou na evidncia? Pela primeira vez na vida, no sabia. Apesar de todas as dvidas,; ainda a desejava. Era mais que desejo. Qumica. Obsesso. No sabia que nome dar  intensa mistura de emoes provocada por aquela mulher.
E por que se torturava com essa questo? Se no pensasse no assunto, talvez pudesse esquec-lo.
 Logo voc ser levada para o quarto  ele informou.  Vai ficar na Recuperao at superar
 
todos os efeitos do anestsico. O soro intravenoso ser mantido pelo resto do dia, e vai receber analgsicos e uma dieta lquida at esta noite.
	Est indo embora?
	Quer que eu fique?
	No...  Sim! Mas jamais admitiria. No quando o desejo era to irracional e ilgico.
	Posso ficar, se quiser.
	No, por favor. O analgsico vai me deixar sonolenta, e seria bobagem perder seu tempo ao lado de algum que est dormindo.
	Tem razo. Bem, vou ver se consigo ligar
para minha me na UTI para saber como Amy
est passando.
	D-me notcias. Isto , se puder voltar...
	Eu voltarei. Agora descanse, est bem? Precisa de repouso.
E ambos ficaram chocados quando ele se inclinou e tocou seu rosto com a ponta dos dedos.
Adam levou-a para casa na manh seguinte. Estivera com ela mais duas vezes no dia anterior, sempre com boas notcias de Amy. Ela recebera a medula, e agora era submetida a transfuses de sangue para alimentar seu sistema imunolgico.
Ainda estava fraca por conta do tratamento radiolgico que destrura sua medula doente, mas no sentia mais nuseas, o que era excelente, e comeava a recuperar o apetite. O pai de Adam tambm contrara uma gripe forte e ainda no pudera ir ver a neta, mas conversara com ela pelo telefone. De acordo com o relato da sra. Callahan,
 
Amy no dissera uma s palavra, mas ouvira atenta e com um sorriso no rosto.
	E voc? Como foi a noite? ' Adam quis saber
enquanto empurrava a cadeira para a ala de emer
gncias do hospital.
Meg esperaria ali enquanto ele fosse buscar o carro.
	Longa!  Por volta das duas da madrugada, decidira que o hospital no era seu local favorito, e apesar das dores generalizadas, sentia que era bom voltar para casa.  E dolorosa  acrescentou, encolhendo-se ao sofrer um solavanco mais forte.   difcil imaginar que algum dia voltarei a andar normalmente.
	Em uma semana, vai estar mais preocupada com a colorao de suas costas e do quadril do que com a dor.
	Colorao?
	Tem mais hematomas do que pode contar. Eles ficaro vermelhos, roxos, azuis, verdes e amarelos, e s depois desaparecero.
	Que maravilha! Lembre-me de no ir  praia antes de comprar um macaco que cubra do pescoo at os ps!
Era bom rir, especialmente com ele. Talvez fosse bom saber que nunca mais teria de receber quase duzentas picadas de agulha de uma s vez... o que a fez pensar em Amy e em toda a dor que ela suportara. E ainda era to pequena! Menos de quinze meses de idade, e j podia ser considerada uma herona.
Com um pai heri.
	Vou buscar o carro  Adam avisou.
 
Meg o viu sair. A maneira como andava indicava que era um lutador, um sobrevivente, um vitorioso. A luta que enfrentava j se estendia por mais de um ano, e o prmio era a vida e a sade de sua filha.
Dois minutos mais tarde, ele a ajudou a sair da cadeira de rodas para acomodar-se no banco do passageiro do automvel. O calor da mo sobre seu ombro era um conforto depois de tudo que sofrera no hospital.
	Est voltando para casa, srta. Jonas.
A frase anunciou o incio de um grande dia. Um dia florido de incio de primavera. O primeiro dia em que o via relaxado, principalmente depois do telefonema para o hospital. Foi a primeira coisa que ele fez assim que chegaram ao apartamento. O mdico informou que a recuperao de Amy era surpreendente.
Como o pai, a menina tambm era uma lutadora.
	Quer ir para a cama, ou prefere o sof?
	O sof.  E nem queria pensar no motivo que tornava a escolha mais segura.
Ele foi ao quarto e voltou com travesseiros e uma coberta leve. Mais uma vez, as mos pareciam fazer seu corpo cantar. Depois de acomod-la, Adam abriu as cortinas para deixar entrar a luz do sol e preparou ch gelado. Meg adormeceu logo depois de beb-lo, mas acordou com a dor que anunciava o fim do efeito dos analgsicos. Havia acabado de abrir os olhos quando o viu entrar no apartamento com um verdadeiro piquenique.
	Adam!
 
	Precisa recuperar as foras  ele falou en
quanto ia retirando embalagens de um cesto.
 Para qu? No estou fazendo nada! Francamente, no estou acostumada com isto.
	Com o qu?
	Com a invalidez.
	Nunca esteve doente?
A comida formava uma pequena montanha na mesa de centro da sala, e Adam sentou-se no cho depois de ajeitar todas as embalagens.
	Existe algum animal mais saudvel que os cavalos? Porque, se existir, certamente sou mais saudvel que ele! v
	No parece.
O sorriso de Adam era curioso e debochado, e exercia um efeito estranho sobre seu sistema nervoso. Ou seria apenas consequncia da medicao?
	Eu sei. Por isso insisto tanto no assunto.
Quando eu era criana, meu pai insistia em man-
ter-me em casa por causa de uma palidez mais
acentuada, e era difcil convenc-lo de que eu es
tava bem e queria jr para a escola.
	Est brincando? Queria mesmo ir para a escola?
	Nem sempre. Mas odiava a preocupao excessiva de meu pai. Ele sempre tinha reunies e compromissos importantes que no podia cancelar, e ento contratava algum atravs de uma agncia para cuidar de mim. E passava o dia todo se culpando por ter me deixado com uma desconhecida.
	No tinham parentes na Califrnia?
	Vivemos aqui na Filadlfia at meus qua-torze anos. Depois passamos quatro anos em Den-
 
ver. E apesar de ter cursado a faculdade em San Francisco quando meu pai foi transferido para l, nunca me senti muito bem naquele lugar. Sabia que teramos de nos mudar eventualmente por causa da empresa de meu pai, e por isso considerava intil criar razes. Foi assim que decidi comear minha vida profissional aqui. Com todas as boas recordaes da infncia, senti que poderia me estabelecer e experimentar um certo sentimento de pertinncia. Quanto  pergunta que fez, no tnhamos famlia em lugar nenhum. Ningum importante. Meus avs paternos morreram h mais de vinte anos. O irmo de meu pai trabalha na Europa. Os pais de minha me so mais malucos que ela. Creio que esto no Alasca. No temos contato algum. Tambm no sei do irmo dela. Meu pai sempre teve grandes amigos, mas todos trabalham, e por isso no podiam ajud-lo quando eu era pequena. Em resumo, papai e eu vivemos sozinhos.
	Devem ter sido muito ligados.
	Ainda somos. Ele  uma pessoa magnfica, e Patty tambm  tima. Fico feliz por terem se encontrado, porque demorou muito. Meu pai passou anos saindo com mulheres diferentes depois do divrcio, mas nenhuma delas conseguiu conquist-lo. Patty tambm  divorciada, mas no tem filhos. Depois do fim do casamento ela voltou para casa a fim de cuidar da me. A pobre mulher passou doze anos muito doente, e sua morte foi uma bno para todos que a cercavam. Patty conheceu meu pai h trs anos, quando foi trabalhar na empresa dele, e os dois se casaram um
 
ano mais tarde. Ela tem quarenta e quatro anos, dez menos que meu pai, mas o relacionamento  perfeito.
	Meus pais tambm se do bem. A nica di
ferena  que esto casados h mais de trinta e
cinco anos. Impressionante, no? Nos momentos
em que duvido do amor e de todas as coisas boas
da vida, olho para eles e volto a ter esperana.
Haviam esquecido o piquenique composto por po italiano, frios, queijos e saladas variadas. O sol que entrava pela janela refletia sobre o cobertor que Adam ajeitara em suas pernas, aquecendo-a e amenizando a dor. Meg pensava no que ele acabara de dizer.
Ao encar-lo, viu novamente as linhas em torno da boca comprimida e dos olhos escuros, sinais que no deveriam existir em um homem de trinta e um anos.
- ^
	E uma pessoa muito sria, no?  perguntou.  Essas linhas em seu rosto no foram provocadas pelo riso.
	Algumas sim. Menos do que eu gostaria,  verdade. Para ser franco, passei a infncia toda rindo. Era a primeira criana a chegar no parque e a ltima a sair de l. Estava sempre feliz, animado, cheio de energia. Connor, um de meus irmos, era meu companheiro mais constante. No inverno, brincvamos tanto na neve que meus dedos ficavam entorpecidos e duros.
	E gritava de dor quando a circulao voltava ao normal?
	Sim, mas valia a pena.
	Sabe de uma coisa? Acho que o vi brincando no parque.
 
	O qu?
	E verdade! No me dei conta disso quando falou sobre a montanha de neve que construiu na ciclovia do parque, mas agora lembrei-me de algo. Meu pai adorava caminhar na neve, e sempre amos visitar um ou outro parque no inverno. Era lindo ver o sol brilhando sobre o gelo... Senti falta disso na Califrnia. Enfim, lembro que um dia estvamos andando e conversando sobre alguma coisa, sem prestarmos muita ateno ao que fazamos, e de repente um garoto de quinze anos mais ou menos desceu deslizando do alto de um monte de neve. Ele estava sentado sobre uma folha de plstico, provavelmente um pedao de uma velha caixa de areia, quando me atropelou. Meu pai ficou furioso e gritou com o garoto. Gritou muito!
	Oh, eu me lembro! Ele gritou de verdade.
	Ento era mesmo voc?
	Eu escorregava sobre um pedao de plstico retirado de uma velha caixa de areia do parque, e lembro-me de quase ter sido agredido por um pai preocupado com a filha, uma menina magri-cela de uns dez anos de idade.

	Onze. E eu no era magricela.
	S percebi que quase havia atropelado a tal menina quando o pai dela comeou a gritar, porque at ento imaginava estar me aproximando de uma rvore. Estava descendo depressa, e a neve flutuando a minha volta tornava o cenrio confuso, desprovido de nitidez. Lembro que fiquei surpreso por voc no ter gritado. Era o que teria feito qualquer outra garota.
 

	Gritar nunca foi meu estilo.
	Imagino que no. Eu pedi desculpas, certo?
	Pediu.  Sincero, educado e arrependido, mas de cabea erguida.
	Posso repetir o pedido, se quiser. Deve ter pensado que eu era um maluco.
	No. At que achei voc bem bonitinho.
De onde sara aquele comentrio inoportuno?
No pensava no incidente h quinze anos, mas de repente a lembrana era ntida. Sorrira para o menino e ficara fascinada com seu sorriso amplo e franco. Passara meses imaginando se algum dia voltaria a encontr-lo.
E de repente, quinze anos mais tarde, estava novamente diante daquele garoto encantador.
 
CAPTULO VI
A
 luz do sol no era mais a nica fonte de calor que a aquecia. A temperatura elevada era proveniente de algo mais concreto.
 Loucura  Adam murmurou sorrindo.  Quero dizer, essas coisas devem acontecer o tempo todo. Afinal, por quantas pessoas passamos nas ruas todos os dias? E provvel que uma, duas entrem em sua vida e tenham algum significado, embora nem sempre percebamos. Nunca me dei conta de que j a conhecia. Se no houvesse contado a histria sobre o morro de neve na ciclovia, jamais teramos sabido que temos uma lembrana em comum.
Apenas uma lembrana. Nada de especial. Mas, por alguma razo, era importante. De alguma forma, a descoberta mudava o relacionamento. Era como encontrar terreno firme sob os ps. Adam era essa firmeza, e tudo que poderiam construir juntos.
Almoaram juntos, e ele providenciou os analgsicos que aliviariam suas dores. Depois conversaram um pouco mais sobre assuntos corriqueiros,
 
sobre recordaes da infncia e as estranhas coincidncias da vida. Quando o medicamento comeou a fazer efeito, Adam colocou um filme no vdeo.
	Voltarei mais tarde com o jantar  disse.
 Preciso de uma cpia da chave para poder en
trar, caso esteja dormindo.
	No vai ficar para assistir ao filme comigo?
Dizem que  timo  acrescentou, tentando sal
var as aparncias e no parecer uma criana
assustada.
s
	E muito bom. J tive oportunidade de v-lo. Mas se preferir que eu fique...
	Oh, no! Voc tem coisas mais importantes para fazer alm de ficar aqui vendo meus hematomas mudarem de cor.
	No posso ver seus hematomas.
	Nem eu, felizmente. Eles podem mudar de cor sem uma plateia, e eu posso assistir ao filme sem companhia. Agora v.
Sozinha, Meg assistiu ao filme e, usando o controle remoto, desligou o vdeo e a tev para dormir um pouco. Quando acordou sentindo o retorno da dor, Adam j havia voltado com o jantar, comida chinesa comprada em um restaurante prximo. Ele tambm havia alugado outra fita de vdeo.
	Este eu ainda no vi ' apontou.  Quer tomar um banho enquanto eu arrumo a mesa?
	Uma ducha! Otima ideia. Estava to cansada que nem pensei nisso.
	Precisa de ajuda?
	No! Quero dizer... no, obrigada.  Por que agia como uma donzela apavorada? Porque a in-
 
timidade de t-lo em sua casa e falar sobre o passado j era maior do que podia suportar. No precisava aumentar o desconforto levando-o para o banheiro enquanto tomava banho.  Viu seus pais?  perguntou, tentando mudar de assunto.
	Apenas meu pai. Mame estava cochilando no quarto reservado para os acompanhantes na UTI. Ela passou a noite toda acordada com Amy e estava exausta. Mas papai contou que Amy est progredindo muito depois do tratamento radiolgico.
	Ele tambm  mdico, no?
	Sim, o que torna sua opinio ainda mais
importante. Meu pai no costuma demonstrar o
que sente, mas sei que estava muito preocupado.
Depois do banho, Meg vestiu as roupas mais largas e confortveis que possua, uma camiseta enorme que s vezes usava para dormir e uma cala de lycra to velha que j havia perdido a aderncia. Satisfeita, foi encontr-lo na sala.
	Sente-se melhor?  Adam perguntou sorrindo.
	Muito!
Depois do jantar, sentaram-se para assistir ao filme. Nenhum dos dois tentou conversar, e ela se sentiu confortvel com o silncio. Os momentos de conexo que haviam experimentado naquela tarde ainda eram muito frgeis e tnues. Talvez s houvessem acontecido por terem se mantido afastados dos assuntos de risco.
Ou por no sentir mais a hostilidade de antes. A deciso de fazer tudo que pudesse para convencer o pai e a madrasta a desistirem do processo
 
de custdia havia proporcionado um intenso sentimento de paz. Ainda queria o melhor para a sobrinha, e de seu ponto de vista, o primeiro passo nesse sentido seria deix-la ao lado do pai. O convvio da criana com os avs seria possvel e positivo, e se todos pensassem juntos tendo em mente o bem estar da menina, encontrariam uma soluo.
O analgsico que tomara antes do banho comeava a fazer efeito, e sentia uma satisfao profunda como no experimentava h muito tempo... at meia hora mais tarde.
Tudo aconteceu num* piscar de olhos. Estavam assistindo ao filme e Adam resolver comer mais um pouco da deliciosa comida chinesa. Ele tropeou no cobertor, cuja ponta Meg deixara cada no cho, e perdeu o equilbrio, desabando em cima dela. Uma das mos buscou apoio exatamente em suas costas.
Meg gritou de dor, e ele se levantou assustado. A onda era to forte, que ela balanava para a frente e para trs, tomada de assalto por uma nusea surpreendente.
	Meu Deus! Meg!
	Tudo bem!  ela gemeu.  J vai passar.
	Por favor, grite! Pode me xingar, se quiser.
	No consigo  Meg respondeu, respirando fundo ao sentir os primeiros sinais de alvio.
	Deve estar querendo me matar!
	Eu o mataria, se soubesse em que locadora pegou a fita.
	E claro. Homicdio  perdovel, mas deixar de devolver o filme...
 
Os dois riram.
Adam massageava suas costas com movimentos circulares e suaves, despertando outras sensaes. O que poderia fazer para convenc-lo a prosseguir com o tratamento?
	Agora estou melhor disse.  Essa sua terapia  infalvel.
	Terapia? Oh, sim...
Ele no havia notado. Apesar do constrangimento, continuou com a massagem. Depois de alguns instantes, superado o desconforto inicial, ele deixou a mo descer at uma de suas coxas, repetindo os movimentos anteriores. Em seguida, , foi a vez da cintura. Meg deliciava-se com o tra-' tamento, mantendo os olhos fechados para no perder um s segundo da doce tortura. As mos dele estavam subindo, e seus seios respondiam . como se mal pudessem esperar para senti-las.
	Meg? Humm?
	O que est havendo aqui?	
	Eu... no sei. Creio que no estava prestando.
ateno...
	No me refiro ao filme.	!
 Nem eu  murmurou, sentindo os lbios'
bem perto dos dela.
O beijo foi longo e excitante. Jamais tivera tanta certeza de estar agindo corretamente. Era certo sentir os braos em torno do corpo, provar o sabor de sua boca e toc-lo com ousadia. Podia sentir a presso da excitao de Adam contra seu ventre. Ouvia o ritmo descompassado da respirao ofe-
 
gante. Queria aquele homem, sabia que ele a desejava, e no momento no conseguia pensar em uma nica razo para tentar conter o instinto natural.
Mas de repente ele se afastou. Com tom firme, formulou uma pergunta que ela no conseguiu entender, pelo menos de imediato.
	Quantos comprimidos tomou, Meg?
	Comprimidos?
	Os analgsicos.
	Oh... Segui a prescrio. Um ou dois comprimidos a cada quatro horas.
	E tomou dois dels em todas as doses?
	No pensei que um pudesse ser suficiente.
	Talvez, mas dois comprimidos a cada quatro horas para algum do seu tamanho... Receio que tenha exagerado. Como se sente?
	Meio tonta. E os hematomas no esto doen-do. E muito bom. No me importo com nada alm do que estamos vivendo aqui.
	O que  um problema srio, se parar para pensar um pouco.
	Problema?
	Meg, pelo amor de Deus!  Ele se sentou na mesa de centro e abriu os braos. O susto provocado pelo movimento brusco a despertou para a realidade.
O filme continuava se desenrolando na tela da tev. Um personagem, uma garota cega sem namorado, uma garota tmida demais at para sair de casa na ltima cena a que Meg assistira, estava se casando. No sabia como os dois personagens
 
haviam se conhecido, mas formavam um belo casal. Meg esperava que fossem felizes.
	Meg!
	Humm? Desculpe-me, Adam, eu... acho que me sinto um pouco confusa.
	Beba um pouco de gua.
Os dedos se tocaram quando ele entregou o copo. A corrente eltrica foi imediata e intensa, e de repente ela se sentiu lcida. Sabia o que precisava dizer. Seria melhor discutir o assunto com o pai e Patty antes de comunicar sua deciso a Adam, mas no tivera uma chance de encontr-los, e no queria mais que ele se preocupasse com o processo.
Depois de esvaziar o copo, disse:
	Adam, sei o que est sentindo e em que est pensando, mas pode ficar tranquilo. Ontem tomei uma deciso. Vou dizer a meu pai e a Patty que no devemos mais insistir na briga pela custdia de Amy.
	O qu?
	Voc tem razo. Ela  sua filha e deve ficar a seu lado.
	No acha que essa  uma mudana muito sbita?  ele perguntou intrigado, os olhos cheios de suspeitas.
Meg entendia seu comportamento. O homem era mdico, e ela, advogada. Profissionalmente, tinham de estar certos de todos os fatos para garantirem uma viso clara da situao antes de agirem. E pessoalmente, no era diferente. Por isso decidiu explicar:
	Meu pai e Patty vo querer participar da
 
vida de Amy. E eu tambm, para ser bem franca. Ela  tudo que temos de Cherie, e sua filha  muito importante para todos ns. No podemos continuar vivendo como se ela no existisse. Precisamos dela em nossas vidas. Mas estou convencida de que o caminho para isso no passa pelos tribunais.
	Ah, no?
	Espero que possamos evitar qualquer tipo de acordo legal ou medida judicial. Para isso, basta permitir que Amy conviva conosco. Por exemplo, ela pode ir passar as frias na Califrnia com meu pai, e eles podem vir visit-la na Filadlfia. Gomo eu, gostaria de sr com Amy eventualmente, talvez traz-la para dormir em minha casa... E s isso.
Esperava ver alvio e compreenso nos olhos dele. Queria poder testemunhar o alvio tomando o lugar da apreenso. Afinal, Adam merecia ser feliz!
Um homem, especialmente um pai solteiro, no devia passar pelo que estava passando. Os efeitos eram visveis em seu rosto, na maneira como os ombros pareciam carregar um enorme peso, e por alguma razo ela sentia uma enorme necessidade de pr fim a sua tortura. Esperava ter dito as palavras certas para alivi-lo.
Mas estava enganada.
Ele se levantou e foi para o outro lado da mesa, tenso, e os ombros ainda pareciam suportar um peso maior que o do mundo. Havia algo de hostil e ameaador em sua postura.
 
	Quer evitar complicaes legais?  ele disparou.
 Aposto que sim! Porque sabe que no tem espe
ranas de vencer essa batalha. Mas saiba, Meg Jonas,
que eu jamais vou permitir que seu pai e sua ma
drasta fiquem sozinhos com minha filha. Nunca!
Tinha a sensao de ter sido agredida, e Adam agia como se a houvesse espancado, apesar de no t-la tocado. Plido, mantinha os punhos cerrados como se temesse no poder conter a ira.
E a reao era incompreensvel.
	Mas... por qu?
	Porque no confio em vocs. E se esperava mudar o panorama com essa cena de seduo, lamento informar que estava enganada. Admito que a tentao foi grande, e tenho de reconhecer que fingir uma certa tontura por causa do efeito do medicamento foi uma atitude bastante esperta. Cherie teria feito o mesmo. Mas o plano falhou, benzinho. Teria ido mais longe se houvesse tentado amolecer-me primeiro.
	Amolecer?
	E eu disse talvez. Pensando bem, nada*teria surtido o efeito que voc esperava.  E comeou a recolher as embalagens de comida.
	O que est fazendo?
	Arrumando estas coisas para voc.
A resposta a inflamou.
	No se atreva!  gritou, sentindo uma pon
tada de dor ao erguer o corpo. A cabea latejava.
 No ouse fingir que est me ajudando depois
do que acabou de dizer! Saia daqui! E no volte
nunca mais!
 
Ele hesitou, como se algo o fizesse pensar se devia ou no obedecer  ordem, mas acabou por cumpri-la.
 Muito bem, estou indo embora. Entrarei em contato.
O som da batida violenta da porta ecoou pelo apartamento como uma concluso dramtica para uma cena irreal. Meg respirou fundo. Duas pessoas discutiam no filme, mas nem sabia quem eram ou o que diziam. Toda a regio plvica doa e, sem saber o que fazer, ela desligou o vdeo e a tev usando o controle remoto.
Por alguns segundos, sentiu-se chocada e paralisada. A raiva de'Adam a atingira como um raio, e ainda no conseguira entender o que a motivara. A conexo entre eles, um sentimento que desde o incio havia parecido certo e inevitvel, chegara a dar sinais de desabrochar completamente naquela noite. E ele a acusara de ter forjado a atmosfera de intimidade? De ter fingido o desejo?
No fazia sentido. Por que Adam no compreendera sua oferta de paz, esperana e felicidade para todos os envolvidos no processo? Como pudera pensar que tudo havia sido apenas uma estratgia?
Como pudera enganar-se to completamente a respeito de um ser humano? Adam no era honrado, franco ou generoso. Era paranico, agressivo e controlador. Sim, podia repetir as palavras. Paranico. Agressivo. Controlador. E podia fingir que acreditava nelas. Que as acusaes amenizavam
 
a tristeza e a confuso. No podia admitir que estava desapontada por ter se enganado com ele.
E no devia sequer tentar pensar no que tudo aquilo significaria para Amy.
O melhor que tinha a fazer era ir dormir.
Adam ainda tremia quando chegou em casa. Incapaz de relaxar ou sentar-se, ficou andando de um lado para o outro. Foi at a cozinha e preparou uma bebida quente, receita da me para curar gripes e resfriados. gua fervente, suco de limo, mel, gengibre ralado e alho fresco. O gosto era horrvel, mas ele bebeu toda a xcara.
Depois foi para o quarto de Amy, que havia sido um estdio at o ano anterior. Saber que a tinha de volta depois daqueles meses tenebrosos sem saber onde ela estava, era fonte de intensa alegria, e cada vez que entrava no aposento infantil e feminino em tons de rosa era invadido pela sensao de estar celebrando o que tinha... e o que ainda temia perder.
O apartamento de Meg, to diferente com sua decorao adulta e elegante, criara um sentimento semelhante naquela noite. Pelo menos, essa era a nica explicao que ousava dar para o que experimentara. Viveram momentos incrveis juntos, como quando descobriram as recordaes em comum.
Havia sido delicioso levar o jantar e arrumar a mesa diante da tev enquanto ela tomava banho, como Tom e Julie costumavam fazer todas as noites depois que as gmeas dormiam, ou como os
 
pais ainda faziam, mesmo depois de trinta e seis anos de vida em comum.
Sendo mdico, tendo vivido apenas alguns relacionamentos trridos com colegas de faculdade e a ligao desequilibrada com Cherie, no desfrutara de muitas noites tranquilas ao lado de uma mulher em sua vida adulta.
Esquecera a complexidade dos eventos que os cercavam. S pensara em como era bom poder acarici-la depois de t-la machucado, mesmo involuntariamente, e como eram lindos seus olhos cinzentos. Provara o sabor da boca carnuda e tentadora, sentira o calor do corpo pressionado contra o dele e fora tomado pelo-desejo.
Qual seria a verdadeira histria sobre seu comportamento? Ele a acusara de ter fingido o efeito do uso excessivo de analgsicos, mas talvez houvesse apenas tentado enganar a si mesmo. Honestamente, sabia que o beijo no fora uma ocorrncia unilateral. Ele tomara a iniciativa, e apesar de ter sido correspondido, no podia negar o fogo que o consumira depois do primeiro contato.
Desejara beijar no s os lbios de Meg, mas seu pescoo, os seios, o ventre... Durante todo o tempo havia pensado na cama de casal no quarto dela, no edredom azul e branco'que a cobria, nos travesseiros macios...
E de repente ela o encarara com aquele ar de felicidade e anunciara sua inteno, falsa certamente, de desistir da briga pela custdia de Amy, de convencer o pai e a madrasta a abandonarem a briga, desde que pudessem ter a menina com
 
eles eventualmente. Assim, todos viveriam felizes para sempre.
Ao ouvi-la, lembrara histrias que havia lido, situaes que testemunhara no hospital... e Cherie. Levar Amy.
Ele a ameaara, e no estava arrependido do que dissera. Estabelecera um limite, e agora Meg e sua famlia sabiam o que esperar. Que brigassem pela custdia, se quisessem, mas no venceriam a luta. Que desistissem, se achassem melhor, e poderiam ver Amy sempre que desejassem, mas jamais ficariam sozinhos com ela.
Mais importante que tudo, definira um limite para si mesmo. Estava profundamente grato a Meg pelo que ela fizera, por ter suportado a dor fsica para salvar a vida de Amy, mas era s isso. Gratido. Lutaria com todas as foras contra a atrao fsica. No permitiria que o sentimento o cegasse para o poder que aquela mulher detinha de destruir o que havia de mais vital em sua vida. Adam sentia a cabea latejar. A garganta estava ardendo novamente. Munido de mais uma xcara da bebida milagrosa da me, tomou dois comprimidos de antigripal para garantir uma recuperao mais rpida, e depois telefonou para o hospital em busca de notcias de Amy.
Depois de contar que a menina havia chamado por ele antes de dormir, sua me perguntara:
 Como est Meg? Lamento no poder trat-la com mais carinho depois de tudo que fez por nossa menina, mas o fato de ainda estar interessada em tom-la de ns...
 

	Talvez ela desista do processo de custdia.
	Oh, Adam, isso  maravilhoso! Se Meg finalmente conseguiu ouvir a voz do bom senso...
	Sim, vamos torcer, est bem?
	Torcer?  tudo que tenho feito, querido. V dormir e tente relaxar. Tem se deixado consumir por essa hiptese da briga judicial com os Jonas, e temo por sua sade. Voc no  mais a pessoa que costumava ser.
	Eu sou, me. Ou serei, quando tudo isso acabar. E prometo que vou dormir  disse, esperando estar certo.
No sobrecarregaria a me com um relato completo. Ela e o pai j haviam sofrido demais com tudo que acontecera desde o nascimento de Amy. A descoberta daquela noite, o novo fato, seria um fardo que carregaria sozinho.
 
CAPTULO VII
A luz que penetrava no apartamento lie a dor intensa no corpo indicavam que a manh chegara. O efeito do analgsico se dissipara durante a noite. Era a segunda noite em casa desde que sara do hospital, e passara o dia anterior sozinha. Tentara falar com os pais em San Franscisco, mas s conseguira ouvir a mensagem da secretria eletrnica.
E recebera um telefonema de uma agncia de empregados especializados informando que o dr. Adam Callahan solicitara uma enfermeira para ir cuidar dela. Meg recusara a ajuda com firmeza e educao. No precisava dele nem de sua considerao. Era como se ele estivesse tentando recompens-la financeiramente pelo que fizera por Amy.
	Como se ele no pudesse aceitar que foi um
gesto de amor. Por qu?
O toque da campainha interrompeu a reflexo. Devagar, caminhou at a porta e surpreendeu-se ao abri-la e ver o pai, Patty e trs malas.
	Vocs vieram! exclamou aliviada.  No,
por favor, no me abracem! Ainda sinto dores
horrveis.
 
	Pobrezinha!  Patty lamentou.  Agora
tudo vai ficar bem. Viemos cuidar de voc.
	Mas... pensei que estivesse ocupado, pai.
	O dia de ontem foi um pesadelo. Mal tive tempo para chegar perto do telefone, e quando ouvi seus recados j era tarde demais para ligar. A empresa foi comprada por um sujeito ganancioso que vive de transaes hostis e s vezes desleais. O fato consumou-se, e no havia mais nenhum motivo para que eu ficasse por l.
	Pai! Est desempregado?
	Ainda no sei  ele sorriu, tocando seu rosto com carinho. Ativo e bem conservado, ele no aparentava os cinquenta e -quatro anos de idade. Se o novo proprietrio da companhia o demitisse, estaria cometendo um terrvel engano.  Creio que no, mas duvido que continue em San Francisco.
	Vo ter de mudar de cidade? Outra vez?
	No tem importncia  Patty anunciou animada.  Nenhum de ns tem razes muito profundas naquela cidade. A mudana seria uma aventura! A nova companhia possui filiais em todo o pas, inclusive aqui na Filadlfia. Mas no viemos para falar do nosso futuro. No devia estar deitada?
	Os mdicos dizem que devo obedecer aos meus limites, e j estou me sentindo bem melhor. Dolorida,  verdade, porm animada.
	J esteve com Amy?
	Ainda no.
Falaram sobre o transplante enquanto Patty preparava o caf, uma refeio farta que arrancou protestos de Meg.
 
	Pare com isso! No tenho nenhuma atividade fsica desde a cirurgia. Esse bacon vai se instalar definitivamente nos meus quadris!
	E da? Voc est to magra que pode cometer alguns excessos.
No entanto, Patty no comeu muito.
	Sinto-me um pouco enjoada  ela explicou.
 Deve ter sido a viagem. Estou cansada.
O que levou Meg a adiar a conversa sobre a custdia de Amy. Esperaria at que estivessem mais descansados, e ento tentaria convenc-los a desistirem do processo. Patty persistiu na necessidade de repouso, e seu pai foi devolver as fitas que Adam havia alugado em uma locadora do bairro. Combinaram que conversariam no dia seguinte, quando todos estivessem mais dispostos.
E no eram os nicos com planos para o dia seguinte. Adam telefonou no incio da tarde para informar que recebera autorizao para ir visitar Amy.
	Tenho certeza de que quer ir v-la  concluiu com tom frio.
	Se for possvel, sim  ela respondeu cautelosa.

	Quer que eu v ajud-la com alguma coisa?
	No, obrigada. Meus pais chegaram de surpresa h algumas horas, e Patty est me tratando como se eu tivesse trs anos de idade. Eles vo passar alguns dias na cidade e gostariam de ver Amy assim que for possvel.
	Por enquanto  impossvel. No podemos correr riscos. No quero cans-la com a presena de estranhos, especialmente se esses desconhecidos
 
acabaram de desembarcar de um avio repleto de vrus e bactrias.
	Tudo bem, eles vo entender  garantiu, sem saber por que era to importante demonstrar compreenso. Depois de tudo que ele dissera h dois dias...
	Podemos prolongar nossa estadia, se for necessrio  Patty interferiu ansiosa.  No  verdade, Burt?
Mas Meg no prestava ateno ao casal sentado no sof e nem ouviu a resposta do pai. Ainda estava convencida de que desistir da custdia era a atitude mais correta, mesmo depois de tudo que ouvira, mesmo sabendo que jamais poderiam ficar sozinhos com Amy.
Mas poderia argumentar com o pai e a madrasta sem revelar as ameaas de Adam? Exausta, no sabia mais a quem devia lealdade, nem qual era o caminho mais certo a seguir.
	Eles jamais fariam qualquer coisa que pudesse jpr em risco o bem estar de Amy  disse.
	E claro que no. O problema  que minha definio de bem estar  oposta a deles.
	V para o inferno, Adam! Isso no  verdade!
Meg ouviu a exclamao chocada de Patty e
lamentou a prpria falta de controle. Nunca conhecera outro homem capaz de provocar respostas emocionais to rpidas e intensas, fosse a emoo raiva, frustrao ou desejo. Pensando bem, jamais havia conhecido algum como Adam.
	Irei busc-la amanh por volta das dez 
ele anunciou sem reagir  exploso.
 
	Estarei esperando  Meg respondeu, ten
tando soar calma e relaxada.
Mas Patty no se deixou enganar.
	O que foi que ele disse? Por que o desmentiu com tanta veemncia? Est escondendo alguma coisa de ns? Pensei que esse homem houvesse entendido que s queremos o bem de Amy.
	Oh, ele sabe disso. O problema  que...
	Fale, Meg!
Ela suspirou.
	Hoje no, Patty. Quero conversar com ele primeiro.
	Mas...
	No insista, Patty  Burt interferiu.  Meg precisa descansar. E todos ns temos de confiar na percepo dela sobre o assunto. Amanh voltaremos a falar sobre isso.
Na manh seguinte, quando Adam foi busc-la, Burt e Patty haviam sado para fazer compras em um carro alugado. Ningum dissera nada, mas Meg sabia que o casal tomara providncias para estar ausente. A ideia devia ter sido do pi dela. Patty era impetuosa demais, passional a ponto de no conseguir assumir uma postura mais cautelosa, mesmo sabendo que seria melhor assim.
	Pena. Esperava poder conhec-los  Adam
comentou sem entusiasmo.
A verdade era que desejava analisar o adversrio.
Talvez ele houvesse sido sempre hostil, Meg re-fletiu. O calor e a simpatia deviam ter sido fingidos, um plano para conquist-la e convenc-la
 
a doar a medula necessria  vida de Amy. Como j havia conseguido o que queria, Adam podia deixar cair a mscara.
Devia estar furiosa, jurando vingana, mas tudo que sentia era dor. Uma dor profunda e intensa.
	Logo ter uma oportunidade de conhec-los  disse, tentando ser breve e fria.  Podemos ir?
	Como se sente?
	Melhor. Ainda estou tomando o analgsico, mas, quando o efeito passa, sinto que as dores esto diminuindo. De qualquer maneira, hoje no estou pensando em mim. E... quero que saiba que sou grata por ter me convidado a participar da visita. Ainda no esteve com sua filha...
	Depois do que fez por ela, tem todo o direito de v-la. No pense que me esqueci disso.
	Oh, no, voc no esqueceria! Mesmo tendo decidido que sou o grande monstro da lagoa negra!  Era impossvel conter a irritao.  Decidiu permitir que eu v ver Amy porque sente que tem o dever de aceitar minha presena, no por considerar-me uma pessoa aceitvel. O que sente por mim no importa, desde que seu dever moral seja cumprido. Sabe de uma coisa? Estou feliz por Amy! Tenho medo de pensar no que poderia acontecer se voc houvesse descoberto que o Conde Drcula  um doador compatvel!
.. Silncio.
Pena... Esperava receber uma resposta furiosa e inflamada, cheia de revolta como suas palavras haviam soado. Teria sido um prazer poder trocar acusaes e gritos com aquele sujeito odioso antes mesmo de partirem em seu carro.
 
Mas Adam limitou-se a ligar o motor, os olhos fixos na rua como se nem notasse sua presena.
	Minha me acredita que devemos dizer a Amy quem voc  e revelar a existncia dos novos avs. Ela espera aproveitar a visita de hoje para isso.
	 mesmo?  Teria uma aliada em Beth Cal-lahan? Conhecera a me de Adam h duas semanas, rapidamente, em circunstncias nada positivas, mas sentira que poderia gostar dela.
	 claro que as revelaes no tero um grande significado para Amy. Tia e avs so apenas palavras.  o relacionamento que conta. Ela ama meus pais porque os conhece, no porque os chama de avs.
	Sei disso, Adam.
	Sabe?
	 claro que sei! Se tem algum problema com o que eu disse ontem sobre meus pais a levarem para a Califrnia em frias, se  isso que o incomoda tanto... Bem, pode relaxar. E claro que eles pretendem conhec-la primeiro. Ningum tem a inteno de coloc-la em um avio para uma viagem com desconhecidos.
	Hum!
Era irritante. O que poderia fazer para vencer a resistncia do sujeito? Fisicamente, encaixavam-se com a perfeio de peas de um quebra-cabeas. Mas, em outros aspectos, era como se falassem idiomas distintos.
Ela desistiu de pensar no assunto assim que chegaram ao hospital. As precaues a que foram
 
submetidos antes de serem levados  UTI a fez compreender a verdadeira dimenso do perigo.
	Observe enquanto lavo minhas mos  Adam pediu, exibindo a escova e os movimentos com que a passava entre os dedos, em torno das unhas e nos braos at os cotovelos.  Agora  sua vez  ele disse depois de dois minutos.  Dedique ateno especial s unhas.
	Certo.  E lavou as mos com cuidado. Depois encarou-o e notou que Adam a observava como se a julgasse capaz de transportar bactrias para dentro da UTI deliberadamente.   o bastante?
	Quase. Enxgue com gua em abundncia.
	Onde abro a torneira?
	Aqui.  Ele se aproximou para acionar o mecanismo atravs de um pedal sob a pia e a coxa tocou a dela.
Em seguida vestiram a tnica, colocaram as toucas e os protetores de sapatos, terminando a operao com a mscara. Adam executava os movimentos com desenvoltura, resultado do constante exerccio profissional. Mas Meg encontrava dificuldades com a vestimenta, e ele decidiu ajud-la, criando uma intimidade que era quase intolervel.
Mas quando passaram pela porta que levava  UTI peditrica com todas as suas superfcies esterilizadas e seus equipamentos modernos, nada mais teve importncia.
	Papai! Papai!
	Fique quieta, benzinho  Beth Callahan pediu com doura.
 
Amy ainda tinha um tubo intravenoso no brao, mas estava recostada contra uma pilha de travesseiros e usava uma camisola prpria, uma confeco num tecido cor de rosa com um personagem Disney estampado no peito.
	Ol, meu amorzinho Adam cumprimen-
tou-a emocionado.
Meg teve de se esforar para resistir ao impulso de aproximar-se e toc-lo oferecendo apoio. Em vez disso, manteve-se ao lado da porta, sentindo-se excluda, desejando ter o direito de reivindicar um lugar na vida daquela criana e do pai dela.
	Estou muito feliz por poder estar aqui com voc!  ele dizia. Fiquei resfriado, mas agora estou aqui. Papai est com voc, meu bem.  E abraou-a.  No imagina como quero beij-la!
	S mais algumas semanas, Adam, e ela ir para casa  Beth Callahan tentou confort-lo.  Apegue-se a essa certeza.
	O que mais tenho feito alm de apegar-me a esperanas e ideias, me? O que vir depois disso?
	Nada! Depois disso voc ter uma filha saudvel, normal e feliz, uma criana que ser sempre amada e bem cuidada.
	Droga...
Beth o abraou e beijou os cabelos do filho atravs da mscara que cobria seu rosto.
Meg virou-se para esconder as lgrimas. Qual era seu papel naquilo tudo? Os Callahan nem se lembravam de sua presena. No os culpava por isso e compreendia o comportamento de me e
 
filho, mas a dor era a mesma. A filha de Cherie. Sua sobrinha. A chance de construir um relacionamento melhor do que jamais tivera com a irm.
	Meg! O que faz parada a na porta?  Beth
perguntou de repente.  Junte-se a ns.
Ela exibia um comportamento mais cordial do que naquele primeiro e breve encontro.
	Ol, Amy...  Meg adiantou-se com o pre
sente que havia comprado para a menina na se
mana anterior, um conjunto de animais de pls
tico embrulhados em papel colorido e brilhante.
O sorriso da criana diante do brinquedo quase a levou s lgrimas. No entanto, sentia-se constrangida e deslocada. No sabia o que dizer ou como agir, e o olhar atento de Adam s piorava a situao. A presso era insuportvel. Sabia que tinha de convenc-lo de seus sentimentos por Amy, da capacidade de criar um vnculo forte e verdadeiro com a menina, e quanto mais pensava nisso, mais difcil era relaxar e deixar o relacionamento acontecer naturalmente.
Beth Callahan parecia, entender sua aflio.
	E difcil, no? Este  um ambiente artificial,
especialmente para uma criana. Ela tem de pas
sar o tempo todo no mesmo lugar, olhando para
as mesmas coisas, e est cansada dos brinquedos
que tem. Compramos coisas novas desde que ela
veio para c, mas Amy tambm se cansou delas.
Meg pode ajud-la a arrumar os novos bichinhos
na cama, querida?
Amy balanou a cabea.
	Eu alumo.
 
	Tudo bem...  A av encolheu os ombros.
Depois olhou novamente para Meg.  Eu canto
para ela. Conto histrias, fao teatro com os dedos,
mas tudo perde a graa depois de algum tempo.
 Posso imaginar.
	L est o dr. Tanner - Adam disse de re
pente, olhando para o corredor alm da janela de
vidro.  Vou falar com ele imediatamente, me,
caso no tenha outra oportunidade. Quero saber...
Ele se aproximava da porta enquanto falava, e Meg no conseguiu ouvir o restante da frase. A julgar pela enxurrada de termos mdicos, Adam no queria ser compreendido. E por que isso a incomodava?
Maldio! Por que no conseguia entender o que
sentia pelo homem? Estar com ele, com a me e
a filha dele a arrastavam mais e mais para o
redemoinho emocional que se instalara desde que
o conhecera. Era como se fosse tragada para a
vida de Adam Callahan, e o que mais a assustava
era perceber que poderia ser muito feliz nela...
desde que ele no a odiasse tanto.	>
	 difcil ser mdico em um momento como este.
A voz de Beth Callahan a assustou.
	Ser? Pelo menos ele conhece o ambiente. Duvido que Adam tenha compreendido minhas dificuldades desde que entrei neste hospital.
	Sim, mas ele tambm conhece cada pequeno detalhe do que pode acontecer aqui. Sabe o que pode dar errado. Sei que meu filho tem passado as noites em claro, lendo todos os livros e artigos que consegue encontrar sobre a doena de Amy
 
e os tratamentos que podem cur-la. Adam imagina a filha sofrendo todos os efeitos colaterais que j foram relatados para a terapia. Vivo dizendo que Amy est se recuperando, que ela no  como o caso que aconteceu na Frana h seis anos. Amy no  uma estatstica!
	Adam no confia em ningum, no ?
	No momento, no. Tenha pacincia.
	Pacincia? Quando h tanto em jogo? Lamento, mas o tempo no est a favor dos interesses de Amy.
	Tuco  a menina anunciou.
	Quer suco, querida?  Beth esclareceu, entregando o copo de treinamento  neta. Depois de v-la beber com avidez, sorriu e devolveu o copo  mesa de cabeceira.
	Adam sempre foi passional  disse.  Ele vive intensamente, e essa  uma moeda que tem dois lados. Significa que ele  capaz de encontrar um grande amor, a felicidade, a paixo e o sucesso. Anseio por v-lo desfrutando de todas essas coisas algum dia, e sei que ele as encontrar. Mas a intensidade de sentimentos tambm implica em um sofrimento mais intenso e profundo, em uma fria.;.
	E este o ponto!  Meg cortou.  No entendo por que ele est to zangado comigo!
Beth a encarou surpresa.
	Adam est zangado com voc? Mas... pensei
que a questo da custdia estivesse encerrada!
A honestidade era a nica resposta possvel.
	Quero encerrar esse assunto de uma vez por
 
todas. No creio que uma briga judicial seja o melhor para Amy, especialmente depois de ter testemunhado o relacionamento entre ela e Adam, mas ainda no conversei com meus pais. Eles so muito equilibrados e razoveis...  Preferia no lembrar a conversa que tivera com Patty pelo telefone duas semanas antes, quando ela estivera muito longe de ser razovel. Por isso concluiu depressa:  Tenho certeza de que no haver problema algum.
	De qualquer maneira, a est a resposta que
procura. Adam no  do tipo que relaxa antes da
concluso de um assunto, especialmente uma
questo como a que estamos vivendo. Meg, ele 
passional! Lembre-se disso, e se est comeando
a... No, esquea.
Mas Meg foi deixada com a sensao de que a me de Adam pudera ler seus sentimentos.
	A maldio de saber demais  Steve Tanner
suspirou.  Francamente, Adam, vou ter de re
petir tudo novamente? Amy aceitou bem o trata-
mento radiolgico. Os exames de sangue acusam
um progresso rpido, e ela est se alimentando.
Todos os sinais so normais. Precisa relaxar, ho
mem, ou ela vai achar que no est melhorando,
e voc sabe como a atitude  importante, mesmo
em crianas pequenas como Amy.
	Resumindo, estou sendo inconveniente e devo deix-lo em paz?  Adam sugeriu ao colega, mdico de Amy.
	Em resumo, sim. Eu entendo, pode acreditar.
 
Quando minha esposa ficou grvida, agi como um idiota, embora ela tenha passado muito bem. Sendo assim, amigo, deixe-me ir cuidar dos pacientes que precisam realmente de mim, certo?
	Certo.  Adam riu e estranhou o som rouco,
como se a voz no soubesse mais produzi-lo.
Steve deixou a UTI. Ele voltou para o quarto de Amy e viu a filha, Meg e a me atravs da porta aberta. Havia algo de cativante na cena, e ele as observou em silncio enquanto se aproximava.
Vestida com a roupa da UTI, Meg fazia rudos estranhos, como se imitasse animais, e Amy os reproduzia.
	Ic! Ic! Ic!
	Ic! Ic! Ic!
	Muito bem! Voc imitou um rato, Amy! E agora, pode me dizer qual  o barulho de um... galo?
	C-c-li-c!
	Lindo! Puxa, quantos animais j imitamos? Um urso, uma vaca, um leo, um lobo, um gato, um cachorro, um rato, galo... Oito! Oito sons diferentes!
Amy riu e bateu palmas. Meg tambm sorria, apreciando a reao da criana. Antes ela se mostrara deslocada, constrangida, sem saber o que dizer, mas agora...
Adam interpretara o comportamento como uma prova, embora nem soubesse de qu. A mulher nem gostava de crianas! No sabia como rela-cionar-se com elas. No era de estranhar que estivesse planejando um rapto. Para ela, uma crian-
 
a tinha a mesma sensibilidade de uma jia. Preciosa, valiosa, talvez, mas um objeto a ser possudo, no uma alma a ser respeitada.
No levara em conta o comentrio da me sobre as dificuldades de interagir com Amy em um ambiente estranho como o de um hospital. Ela sempre via o que havia de melhor nas pessoas e no conhecia toda a histria.
Mas agora, era bvio que Meg sabia como rela-cionar-se com crianas. E sua me estava rindo e participando da brincadeira tambm. As trs pareciam perfeitas juntas. E embora no fizesse sentido, experimentava um intenso sentimento de alvio e calor, como se quisesse que Amy e Meg se amassem.
Era um pensamento perigoso. A distncia entre essa ideia e uma atitude mais liberal, como permitir que ela levasse sua filha ao zoolgico enquanto ele trabalhava, era muito pequena. E no queria repetir aquele dia horrvel em que terminara as consultas na pediatria e fora visitar a filha na UTI s para descobrir que ela havia desaparecido.
Se algo parecido acontecesse novamente... Quanto um homem podia suportar?
Adam aproximou-se da cama.
	Que tal um sapo, meu bem? Sabe fazer o barulho do sapo?  Estava tentando afast-la de Meg e atrai-la para si mesmo, e o truque surtiu efeito.
	Coach! Coach!  A menina disse rindo.
	Perfeito. E por hoje chega, amorzinho. Agora precisa almoar e descansar. Vou lev-la para casa, Meg.
 
Foi difcil endurecer o corao diante da mudana brusca em sua expresso. A luz entusiasmada de antes havia desaparecido, dando lugar  tristeza e ao desapontamento. Pois ela que percebesse a verdade de uma vez por todas! Seria preciso mais do que um punhado de barulhos tolos para conquistar sua confiana.
 
CAPTULO VIII
E
u seria capaz!  Patty anunciou inflamada enquanto se preparava para a primeira visita a Amy.  Se fosse a nica maneira de proteger uma criana de uma situao perigosa...
	Patty, isso  ilegal!  Meg protestou.
	Existem leis superiores s que voc defende, querida. Quando li no jornal sobre aquela me que fugiu com a filha e mudou a identidade das duas... Se ela agiu com a inteno de proteger a criana de uma situao de abuso, creio que deve ser absolvida.
Jonas abraou-a.	;
	Acalme-se, querida. Voc est muito abalada com tudo que temos vivido. No tem dormido, anda comendo mal...
	E Adam no  um pai abusivo  Meg acrescentou.  Mesmo que-tenha milhes de defeitos, este no  um deles.

	A que defeitos est se referindo?
	A nenhum em especial, Patty. S quis dizer...
	Est tentando nos convencer a desistir da custdia. J convenceu seu pai, e quase conseguiu
 
me fazer mudar de ideia, e agora est dizendo que tem reservas com relao ao sr. Callahan?
	No como pai.
	Como o que, ento?
	Ele ...  Estava to confusa sobre Adam, que no sabia por onde comear,  Ele tem enfrentado problemas srios desde o nascimento de Amy. J falamos sobre isso. O parto prematuro, os meses em que Cherie esteve desaparecida com a filha, a doena... Ele  um homem passional, do tipo que tem sentimentos intensos. E sentimentos profundos so timos quando provocados por fatos positivos e alegres, como quando sentimentos o vento no rosto enquanto esquiamos na neve.  Lembrou-se daquele dia no parque quinze anos atrs e pensou em despertar a memria do pai para a estranha coincidncia, mas desistiu.  Mas tudo muda quando a vida causa sofrimento. A dor  profunda, Patty. E Adam tem um forte sentimento de justia e honra.  um lutador.
	Voc parece ter aprendido muito sobre ele num curto espao de tempo. A maneira como o descreve... E como se o conhecesse bem.
	E... acho que o conheo, Patty. Foi necessrio. Pelo bem de Amy, por ns:, tive de aproximar-me dele e conhec-lo melhor. "'           
 Fale mais sobre esse homem.
	Bem, ao longo dos ltimos anos ele apren
deu a no confiar nas pessoas, e agora estamos
testemunhando as consequncias desse apren
dizado. Adam vai precisar de tempo para acre
ditar no que sentimos por Amy. Ele j disse
 
que no poderemos v-la, a menos que ele ou os pais estejam presentes...
	O qu?  Burt exclamou.
	E estou dividida entre a fria causada pela proibio e a compreenso dos demnios que o apavoram. Para algumas pessoas, o amor implica em posse. Como ele pode saber que no somos assim?
	E como ns podemos saber que ele no ?  argumentou Patty.
	No sei.
	 hora de irmos  Burt anunciou com o bom senso de sempre.  Se temos de conquistar a confiana de Adam, no devemos nos atrasar para a primeira visita  nossa neta.
Patty ficou to nervosa com a colocao, que teve de ser acalmada pelo marido antes de sair. Felizmente, os trs chegaram ao hospital no horrio marcado e bem mais tranquilos.
A visita foi satisfatria. Amy parecia muito melhor, e todas as medidas de precauo estavam sendo mantidas. Adam estava sozinho com a filha quando eles chegaram, e a atmosfera foi de cautela e conteno. Ningum gritava. Ningum traa uma hostilidade aberta. Ningum contradizia as colocaes feitas pelos outros.
Patty chorou duas vezes, sempre tomando cuidado para no deixar que Amy percebesse. A mscara e a touca facilitavam o disfarce. Com Adam, ela parecia pisar em ovos.
	Obrigada por ter permitido nossa presena.
No imagina como julgamos importante saber que
ainda h algo da filha de Burt neste mundo.
 

	Tambm fiquei feliz por terem vindoAdam respondeu.  Afinal, vocs so os avs dela.
	Amy deve estar sofrendo muito aqui. Quando ela poder ir para casa?
	Dentro de uma semana. Talvez um pouco mais.
	Deve estar contando as horas.
	E j contei vrias centenas delas  ele con
fessou.  Pelo menos temos calor. Se tudo isto
houvesse acontecido no inverno, com todas as in
feces que rondam adultos e crianas, estaria
mais ansioso e aflito. Quando* puder tir-la daqui,
juro que a farei correr ao ar livre, dormir muito
e comer como uma criana de dez anos. No 
mesmo, meu bem?
Beth e Jim Callahan chegaram, e a enfermeira lembrou o limite de visitantes imposto pelo hospital, especialmente na UTI.
	Meg e eu iremos esperar na cantina  Adam decidiu.
	Boa ideia  ela concordou, preparando-se para mais uma batalha contra os sentimentos confusos que a invadiam sempre que estavam juntos e sozinhos.
Dentro do elevador, com os cabelos desalinhados depois do uso da touca descartvel, no estava exatamente preparada para uma grande revelao. Mas a vida tinha uma maneira estranha de pegar os seres humanos de surpresa.
Estava apaixonada por Adam.
Era a nica coisa que fazia sentido no meio de tudo que experimentava. A qumica entre eles era algo que conseguira aceitar h dias. Semanas.
 
Mas qumica por si s no tinha importncia. Dissera a si mesma que era apenas uma aberrao, uma brincadeira de mau gosto do destino, e assim convivera com a atrao.
	0 que no suportava era o resto: a sensao
de conhec-lo, de compreend-lo, de aceit-lo a
ponto de perdoar todas as atitudes que haviam
provocado sua ira. O poder que ele exercia sobre
sua disposio, a profundidade da mgoa causada
pela desconfiana declarada... Se Adam no fosse
importante, no teria a capacidade de feri-la to
profundamente. E a forma que se sentia dividida,
porque, desejar aquilo que o faria feliz, como ele
merecia ser, no significava querer o que era me
lhor para ela.
Como sempre, Amy era o centro da questo.
Depois do transplante de medula, Adam devia estar sonhando v-la desaparecer numa nuvem de fumaa.
E no conseguia sequer odi-lo por isso.
	Quer um caf?
	Sim, por favor  respondeu, pensando na,
bebida estimulante.
Estavam saindo do elevador e seguindo para a cantina. Adam escolheu uma das mesas mais prximas da janela.
	A UTI me faz sentir uma certa claustrofobia
 explicou.
	Posso imaginar  ela respondeu, servindo-se
de uma xcara de caf na mquina colocada em
um canto do salo.  Amy no v a luz do sol
h dias, no ?
 

	Mal posso esperar para tir-la daqui. Logo a temperatura estar alta demais, e ento ela no poder passar muito tempo ao ar livre.
	Passou a noite com ela?  Como podia conversar com tom to casual depois do que acabara de descobrir?
Adam tambm se serviu, e os dois foram sen-tar-se  mesa.
	Sim, a noite toda. Amy estava inquieta, e por isso permaneci sentado ao lado da cama.
	Adam! Vai acabar adoecerido!
	Teria de passar muitas noites em claro para isso.
	Estou falando srio. Amy vai precisar de voc quando sair daqui, e ento ter de estar forte e saudvel. Se ficar doente, vai ter de se manter afastado dela.
	Esteve conversando com minha me?
	Ela se preocupa com voc.  No devia ter dito isso. Havia sido o mesmo que confessar a prpria preocupao. Mas, pensando bem, por que no podia demonstrar os sentimentos, mesmo que fosse s um pouco? O que havia de errado em preocupar-se com um ser humano, com o pai de sua sobrinha? Talvez assim pudesse derrubar as paredes que ele construra em torno de si mesmo.  E eu a entendo. Como tambm entendo seus sentimentos, Adam. Sei que no posso provar o que digo apenas com as palavras...
Adam sentiu o corao bater mais depressa, como se ela o houvesse tocado. Qualquer mulher era capaz de usar o corpo para aproximar-se de um homem, mas seduzir com palavras era uma
 
tcnica que s surtia efeito quando utilizada pelas mulheres mais sutis e astutas.
Nunca fora prisioneiro dos prprios sentidos, mas de repente temia no poder controlar-se. Com Cherie havia sido diferente. No incio entregara-se  paixo, mas depois, quando passara a conhec-la de verdade, simplesmente deixara de quer-la. Por que no podia ser assim com Meg? Quanto mais motivos tinha para desconfiar dela, maior era a atrao... e precisava encontrar uma palavra melhor para descrever aquele impulso que o dominava quando estavam juntos.
Ela estava ali, bebendo o caf e tentando pensar em algo seguro para dizer. Era estranho como podia interpret-la.
Finalmente, Meg deixou a xcara sobre a mesa e levou as mos  cabea enquanto sorria.
	Meu cabelo deve estar um horror.
	No...
Mesmo assim, ela tentou ajeit-los, e Adam sen-tiu-se fascinado pela beleza dos fios sedosos e brilhantes. Queria toc-los, enterrar o rosto neles e...
	J voltou ao trabalho?  indagou aflito.
A expresso de alvio provocada pela pergunta quase o fez rir.... e beij-la.
	Passei a manh toda no escritrio. Levei uma
almofada comigo para sentar-me com mais con
forto. Foi timo. Estar no escritrio, quero dizer.
E ter levado a almofada, tambm. Recebi um te
lefonema de um cliente que...
No esperava descobrir-se interessado, ou conhec-la melhor atravs de histrias sobre seu
 
trabalho, mas era evidente que Meg Jonas no era a oportunista que dava  profisso uma pssima fama.
	No atua na rea criminal? No defende corporaes?
	No.
	Por qu?
	No tenho a ambio necessria para isso.
Quero me sentir confortvel com os clientes e com
os casos que defendo. Para muitas pessoas, com
prar uma casa  o maior investimento de toda
uma vida, e por isso a transao gera um certo
nervosismo. Minha funo  garantir que tudo vai
correr bem. E se houver algo de errado, estarei
alerta para defend-los. Na semana passada en
contrei um relatrio falso. O engenheiro respon
svel no mencionava falhas estruturais que po
deriam passar despercebidas a um observador me
nos atento.
	E como conseguiu descobri-las?
	Havia algo na maneira como o relatrio foi redigido, e o texto despertou minhas suspeitas.
- Coisas como essas devem ser raras. E quando no acontecem...
	Quando no acontecem, gosto de ficar sentada num belo escritrio, com unia secretria eficiente na recepo e pastas empilhadas em um canto de minha mesa, pensando que tudo aquilo  meu. Acha que  um sentimento indigno para uma profissional liberal?
	Um pouco possessivo, talvez  brincou, sem saber que provocaria uma reao intensa e imediata.
 
	Adam, no sou uma pessoa possessiva! Sei
que est pensando em Amy...
	No estava.
Ela o ignorou.
	...mas a sugesto de lev-la para passar as frias conosco no faz parte de um plano para roubar seu afeto. Conquist-lo, talvez, mas  s isso. Acha que Amy no merece ser amada por todos ns? Compreendo sua dificuldade para confiar no que digo depois de tudo que viveu com Cherie. Quero provar minhas intenes, embora seja difcil, e...
	Pare, Meg. No percebe que cada palavra que pronuncia a coloca em uma situao ainda mais difcil? A vm meus pais, seu pai e sua madrasta. No vamos falar sobre isso agora.
E no falaram, graas a um grande esforo dos dois. Os dois casais conversavam animados, mas Adam era incapaz de ouvi-los. No queria que se entendessem, porque ento no teria nenhum aliado.
Aparentemente, os Jonas deixariam a Califrnia, e Patty se mostrava entusiasmada com a perspectiva de mudana.
	Em alguns aspectos, seria maravilhoso poder
passar um ano fora dos Estados Unidos  ela dizia
 Em algum lugar extico. Tailndia, Venezuela...
Mas  claro que quero voltar para c e... Bem, 
claro que temos de levar em conta nossa convivncia
com Amy. Voc viaja muito, Adam?
Ele ofereceu a resposta mais amistosa que foi capaz de produzir. Os Callahan passaram a falar sobre as frias prolongadas que planejavam tirar
 
em breve, e a conversa prosseguiu inocente...diferente dos pensamentos de Adam. Um ano fora do pas seria uma soluo perfeita para o plano de tirar Amy de casa. Algum lugar extico. Um pas que no tivesse um tratado de extradio com os Estados Unidos.
E no podia deixar de notar que Meg tornava-se mais alerta sempre que Patty tocava no assunto. Estaria com medo de que a madrasta falasse demais? Temia que ela trasse o projeto secreto ar-quitetado pela famlia?
Quieto, observou o grupo reunido em torno da mesa. Cinco pessoas, alm dele. Dois casais com seus respectivos filhos. Um estranho deduziria que ele e Meg eram o elo de ligao. Dois jovens num relacionamento srio promovendo uma aproximao entre os pais.
Ignorando o pensamento traioeiro que ressaltava  desejo de viver semelhante situao com Meg, concentrou-se nos fatos. O elo entre eles era Amy, e nada no grupo ou nas emoes geradas pelo encontro era simples como parecia. Tinha de esforar-se para parecer relaxado, e Meg fazia o mesmo... embora no soubesse de onde vinha a certeza de seu empenho.       ,-
Atento  conversa, compreendeu que o pai sugeria um jantar, e tudo indicava que Burt e Patty aceitariam o convite. Era bvio que Meg tentava encontrar uma desculpa para evitar o encontro, mas, incapaz de pensar em algo plausvel, ela sorriu e concordou com a ideia. Droga, podia antecipar seus pensamentos! Era
 
como se houvesse uma janela de vidro em sua testa por onde pudesse ler ideias claras datilo-grafadas em ordem alfabtica. Como se a conhecesse h anos. E o sentimento no era relaxante.
Seu pai havia sugerido uma churrascaria perto do hospital, e todos se levantavam da mesa. A me conseguiu distanciar-se do grupo enquanto abaixava a voz.
 Adam, no creio que deva temer essas pessoas. Eles parecem honestos e francos, e no esto agindo como se pretendessem brigar pela custdia de Amy.
E nem brigariam, porque pretendiam tir-la do pas de forma ilegal. Fariam tudo que pudessem para causar uma impresso positiva, porque assim tudo seria mais fcil. Mas no diria nada  me. No a sobrecarregaria com inquietaes precipitadas. Mas v-la confiante e encantada com os Jonas era o bastante para alimentar sua desconfiana.
O jantar parecia interminvel. Burt e Jim comeram sem pressa, conversando como velhos amigos. Beth e Meg comeram menos e falaram sobre as tendncias da moda. Patty cutucava um pedao de frango e parecia prestes a cair de cansao. A certa altura, as duas mulheres mais velhas foram ao banheiro e retornaram como se houvessem conquistado a paz mundial. Adam confiava tanto na imagem quanto teria acreditado em um tratado de paz entre Adolf Hitler e a fada dos dentes de leite.
Pedira salmo e o comera sem sentir o sabor do prato, e s se deu conta de que fora incumbido
 
de fazer Meg comer a sobremesa quando viu Burt pegando as chaves do carro alugado. Todos se haviam levantado.
	J paguei a conta  ele avisou.  Mas Meg precisa se alimentar bem depois de ter perdido parte de sua medula ssea.
	 verdade  Adam concordou. E de repente . compreendeu que ficariam sozinhos novamente.
A farsa terminou assim que os dois casais passaram pela porta.
	Sinto muito  Meg desculpou-se.  No sei como eles no perceberam que nenhum de ns desejava esta situao.
	Talvez a desejasse  ele a acusou.  Talvez esta seja a Fase B do plano para amolecer-me. Ser que amanh receberei um relatrio sobre seus progressos? Sobre o que espera conseguir esta noite? Um beijo? Ou pretende ir um pouco mais longe? J pensou que posso estar apenas fingindo? Que talvez no tenha sido enganado, afinal?
No parecia muito razovel, mas estava farto de ser razovel. Estava cansado de fingir. Queria pr as cartas na mesa.
	Adam, voc  paranico!
	Desista! No vou engolir essa sua encenao de simpatia e compreenso. Quer saber a verdade? Pois bem, a vai ela. Ouvi quando falava com Patty pelo telefone h duas semanas. Estavam discutindo a possibilidade de tomar Amy de mim. Ilegalmente! Vai negar e dizer que ouvi mal?
	O que est dizendo?  Ela perguntou indignada, o rosto corado e os olhos brilhantes.
 
 Ficou ouvindo atrs da porta? Aquela era uma conversa privada!
	Voc falava alto.
	Porque pensei que estivesse em seu carro! Alm do mais, a porta estava trancada. Tive de abri-la para deix-lo entrar. Como conseguiu ouvir o que eu dizia?
	Deixei a porta encostada quando sa. Ouvi quando falava com Patty sobre Amy e decidi aproveitar a chance de descobrir o que pretendiam. Ela  minha filha, no confio em vocs, e no vou pedir desculpas por isso. O que ouvi me fez sentir tonturas, e ento segurei a maaneta da porta, fechando-a sem querer. Mas ouvi o suficiente.
	No tem ideia do que escutou, Adam Callahan!
	Vai continuar mentindo?

	No tenho nenhuma obrigao de esclarecer esse aspecto da questo...
	Caramba, voc gosta do seu jargo profissional, no?
	Mas vou esclarecer mesmo assim. Tem razo, Patty estava comentando a possibilidade de ficar, com Amy ilegalmente. Ela ainda no o conhecia, e nem eu o conhecia o bastante para afirmar que a felicidade de sua filha estava a seu lado. E s isso que Patty deseja, Adam. A felicidade de Amy. Ela disse que no hesitaria em cometer um crime para salvar uma criana de uma situao de abuso. Patty tem muito amor para oferecer a uma criana, e nenhuma criana para receb-lo, e neste momento est vivendo uma fase intensa e difcil. No tentei impedi-la de dizer aqueles absurdos,
 
porque sabia que ela precisava desabafar. O choque de descobrir que Cherie havia tido uma filha... Deve lembrar que o confundimos com o ex-namo-rado de minha irm, e depois de tudo isso soubemos sobre a doena de minha sobrinha.
Se ela no houvesse tocado seu brao nesse momento, Adam teria acreditado na explicao. Mas ela o afagou e interrompeu o contato em seguida, deixando no ar a impresso de uma carcia sensual. O efeito sobre seus sentidos foi to imediato e evidente, que Meg devia ter conscincia dele. E devia ter agido com a inteno de provoc-lo.
	No acredito em voc  disse com tom gelado.
	Voc  paranico.
Ela se levantou e partiu, e Adam no tentou det-la. Sentado em sua cadeira, pensando se deveria ou poderia ter lidado com a situao de maneira diferente, permaneceu na churrascaria por mais meia hora, bebendo mais uma cerveja.
	Paranico!  Meg repetiu para si mesma
enquanto esperava por um txi na porta do res
taurante.  Agressivo! E controlador!  Decidiu,
fazendo sinal para um carro.
Depois de fornecer o endereo ao motorista, seguiu em silncio at seu apartamento, onde teve mais um acesso de raiva. S conseguiu acalmar-se quando comeou a examinar a correspondncia e encontrou uma carta de algum que trabalhava para a antiga agncia de modelos de Cherie em Nova York.
Era a pista que seguia h duas semanas, e levara algum tempo para localizar a mulher, que
 
mudara de agncia logo depois da morte de Cherie e sara de frias recentemente. Haviam conversado por telefone um dia antes do transplante de medula, e Meg ficara animada ao saber que Cherie escrevera para Phoebe duas vezes enquanto trabalhava no Arizona.
	Creio que ela procurava por um mentor  dissera a agente.  Ela estava se esforando para encontrar o caminho correto  manter-se nele. Gostaria de ler as cartas?
	Sim, por favor! Estamos ansiosos por qualquer coisa que possa nos mostrar o que ela pensava e sentia. Obrigada.
	Prometo mand-las assim que tiver uma chance.
E ali estavam elas, ainda em seus envelopes
originais e acompanhadas por um bilhete breve. Meg preparou uma xcara de ch e sentou-se para tentar decifrar a caligrafia descuidada da irm.
Ol, Feebs! Estive pensando e decidi usar papel e caneta e contar a algum sobre minhas concluses enquanto elas ainda fazem algum sentido...
Cada carta tinha quatro pginas, e Meg duvidava de que Phoebe Cook houvesse conseguido l-las completamente. O contedo era importante, principalmente porque continha informaes sobre Amy e porque a Cherie vibrante das cartas j no existia mais.
As frases mais significativas pareciam saltar
das pginas.
 
Voc no deve saber que tenho uma filha... Espero t-la comigo novamente em breve... no pude lidar com ela por algum tempo... est com o pai em carter temporrio... sinto-me culpada porque tenho a impresso de t-la abandonado, mas como disse... e alm do mais, o pai dela  uma excelente pessoa... no tem culpa por no termos dado certo... no se surpreenda se um dia eu aparecer com uma bab e uma garotinha! De qualquer maneira, aquele outro assunto, e a questo da cirurgia... Gostaria de reconstruir meus lbios...
A segunda carta fora escrita no dia seguinte.
Feeb, lamento submet-la a outra tempestade cerebral em to pouco tempo, mas hoje tudo parece diferente... ainda no tenho certeza sobre Amy, minha filha... eu realmente a amo, mas... em alguns aspectos, creio que deveria ter ficado com Adam. Um homem como Adam, pelo menos... eu a amo, e teria sido divertido t-la comigo, lev-la para passear no parque, mas talvez no seja justo comBrett...
Meg jamais ouvira esse nome antes, mas podia imaginar que era o namorado de Cherie. Mais um em uma longa lista.        .,
A carta continuava:
Filha de outro homem, bl, bl, bl... Sinto-me to dividida! Conversaremos quando eu voltar para Nova York, e ento voc me dir o que pensa. A questo principal: O que  melhor para o pacote completo de Cherie Fontaine?
 
Havia mais, porm nada de muita importncia. Meg no sabia se Phoebe e Cherie haviam conversado. Phoebe no dissera nada. E talvez a conversa, como o restante da segunda carta, no acrescentasse nada ao panorama geral.
 Oh, Cherie  ela disse para a sala vazia enquanto secava as lgrimas.  Voc ainda era uma criana egosta, imatura e perdida!
E em toda a hesitao em torno de Amy, no encontrara uma s palavra sobre como Adam poderia ter se sentido, caso a convivncia temporria com a filha houvesse chegado ao fim.
Meg pensou em tudo que havia dito horas antes, quando o deixara no restaurante. Agressivo? Sim, mas s quando precisava defender os interesses de Amy. Controlador? Apenas porque o nascimento prematuro da filha, a doena de Amy e o comportamento instvel e irresponsvel de Cherie haviam ameaado minar sua capacidade de controle. Paranico? Sim, e ele tinha todo o direito de ser!
 
CAPTULO IX
A dam abriu os olhos e alongou os ms-xJLculos. Eram seis  meia da manh, e o quarto j estava claro e quente.
Alm da parede, no outro dormitrio do apartamento, Amy cantava e brincava no bero. Fora liberada do hospital na tarde anterior, e aquela havia sido a primeira noite que passara em sua casa depois de muito tempo. Quando entrara no aposento cor de rosa pela ltima vez antes de ir deitar-s, Adam colocara a coleo de animais de plstico na ponta do bero, e no estava surpreso por ouvi-la brincando e imitando os sons dos bichos. O presente de Meg era a sensao do momento. Desde que ela estivera no hospital pela primeira vez, as duas haviam imitado animais todos os dias. Eram mais de dezessete. EJ.agora Amy levava as imagens da mulher para dentro de seu apartamento repetindo a brincadeira s seis e meia da manh. Para ser honesto, no conseguia imaginar despertador melhor.
A diverso durou mais cinco minutos. Depois houve um silncio curto e a voz da menina ecoou segura.
 
	Papai!
	J vou, benzinho  ele respondeu. Animado, levantou-se imediatamente, vestiu uma
camiseta e foi atend-la, feliz por ouvir a palavra simples, porm significativa. O fato de ter chamado o pai indicava que Amy sabia que estava em casa, onde se sentia segura, feliz e amada.
Depois de abra-la e beij-la, Adam trocou a fralda da filha e sentou-se com ela no cho. Ainda de pijama, os dois redescobriram todos, os brinquedos que no haviam sido levados ao hospital, e s por volta das oito horas lmbraram-se de comer.
O problema era que os brinquedos podiam absorver toda a ateno de uma criana de um ano, mas um adulto dispunha de espao e tempo de sobra para pensar. E havia muito em que pensar. Depois da sada intempestiva do restaurante h uma semana e meia, ele e Meg encontraram-se todos os dias no hospital, o que devia significar que o relacionamento se desenvolvia em uma di-reo estabelecida e discernvel. As opes eram limitadas. Quando se conhece melhor uma pessoa, ou gostamos mais dessa pessoa, ou gostamos menos dela. Ou nos tornamos amigos da pessoa em questo, ou passamos a trat-la com frieza distante.
O que no era possvel era conter os sentimentos durante todo o tempo. Adam passara a ter a impresso de que Meg Jonas fazia parte de sua vida h muito tempo. No conseguia lembrar como era viver sem conhec-la. Conversavam, riam, e at haviam feito duas ou trs refeies juntos na cantina do hospital.
 
E tudo isso s havia acontecido graas aos pedidos de desculpas que trocaram no dia seguinte ao desastroso jantar. Mais uma vez, no entanto, as desculpas haviam sido insatisfatrias, como um caminho que no leva a lugar algum.
	No devia ter usado a palavra paranico. E pesada demais  Meg dissera.
	E eu no devia t-la atacado. Afinal, no ouvi toda a conversa, como voc mesma apontou.
No pedira desculpas por ter desconfiado dela, nem revelara a confiana recnvconquistada. E Meg no lamentara ter sido incapaz de compreender a grandeza da situao do ponto de vista de Adam, nem prometera esforar-se para entender melhor os fatos.
Em resumo, nada havia sido resolvido. Talvez por isso, cada vez que estava com ela, Adam sentia dores. Era como uma sensao fsica, uma falta de ar que ameaa sufoc-lo, um calor que podia queim-lo, um descontrole que poderia coloc-lo em situaes perigosas e constrangedoras.
Sim, definitivamente, doa por Meg Jonas!
Depois de alimentar Amy, tomar o caf da manh e trocar as roupas da filha e as dele, Adam preparava-se para ler o jornal quando foi interrompido pelo telefone. Eram dez horas da manh, e teria reconhecido a voz do outro lado da linha em quaisquer circunstncias.
	Bom dia, mame.
	Bom dia, querido. Imagino que esteja cansado e ansioso para passar algum tempo com Amy, mas s liguei para falar sobre a festa de amanh...
 
	No  uma festa, me. Amy ainda no est forte o bastante para isso.
	A festa no  s para ela.  para todos ns. Amy vai adorar brincar no jardim antes de recebermos os convidados, mas o ar fresco a deixar cansada e ela certamente ir dormir. Ento, ns, os adultos, poderemos nos divertir um pouco. Estamos precisando relaxar, querido. E estava pensando... Presumo que tenha convidado Meg?
	Mencionei o assunto  ele admitiu relutante.
	Deve ser o suficiente. E os pais dela?
	Voltaram para a Califrnia h uma semana, como est cansada de saber.
	Oh, no! Eles chegam hoje para alguns dias na Filadlfia. Patty telefonou.

	Por acaso tornaram-se grandes amigas, ou coisa parecida?  Adam indagou mal-humorado, tomado pela velha desconfiana.
	Eles so avs de sua filha. Portanto, so da famlia.
Ele ignorou o comentrio, j que no conseguia compartilhar dos sentimentos da me, e optou por atacar outra frente.
	O que quis dizer com deve ser o suficiente?
	No tem importncia  Beth Callahan respondeu irritada.
	Ser que pode ao menos ser honesta comigo?
Dez minutos mais tarde, depois de cham-lo de
idiota de vrias formas distintas, ela concluiu aborrecida:
	E s comecei a tratar do assunto. Vou deixar
o restante para outro dia.
 
Quando Adam desligou o telefone, os ouvidos ardiam, a cabea doa, e ele sabia que tinha muito em que pensar.
 Que sorte a minha apaixonar-me pelo homem mais difcil que j conheci!  Meg resmungou.
Ela se serviu de refrigerante e bebeu devagar, como se no tivesse outra preocupao no mundo. Depois notou Adam olhando em sua direo mais uma vez, o rosto contorcido na mesma mscara sombria de sempre. No haviam trocado uma palavra desde que chegara  casa dos Callahan h alguns minutos.
Parado no meio do jardim, entre um pinheiro e uma rvore frutfera qualquer, ele conversava com um grupo de quatro pessoas. Parecia contente com a companhia e sorria constantemente, com exceo daqueles momentos em que olhava para ela. Ento, por que no a cumprimentava?
Queria falar com ele, contar as duas notcias que pretendia anunciar, e o fato de no saber como Adam reagiria s novidades s tornava a situao ainda mais difcil.
Beth recebia os convidados, enquanto Jim acendia a churrasqueira. Pela: quantidade de carne e salsichas que ele deixara sobre a mesa de trabalho, deviam estar esperando pelo menos sessenta pessoas para o churrasco de comemorao pelo retorno de Amy.
Pensando bem, para um casal com quatro filhos adultos e famlias numerosas, sessenta pessoas no eram nada.
 
E Adam parecia feliz com o movimento. Era como se usasse a presena de todos os tios e primos como uma boa desculpa para no ir ao encontro de Meg. Naquele momento, ele abraava uma jovem de cerca de vinte anos e a puxava para perto do grupo.
	No me incomodo  ela resmungou.  Na
verdade, no suporto esse sujeito. Ele  s um
grande aborrecimento por quem tive a infelicidade
de apaixonar-me.
Estava aprendendo muito com Adam. Por exemplo, jamais havia imaginado que um ser humano pudesse ser to contraditrio. A experincia era humilhante para algum que sempre fora racional e equilibrada.
Falando nisso, o que uma pessoa racional faria naquela situao? Depois de refletir um pouco, Meg aproximou-se de Jim na churrasqueira.
	Precisa de ajuda?
Ele a encarou surpreso.
	Obrigado pela ajuda, mas... no tem nada mais divertido para fazer?
	Ajudar o churrasqueiro da festa  muito divertido!
	Entendo. No conhece as pessoas, no ?
	Conheo Amy, mas Beth disse que ela est dormindo.
Jim Callahan riu.
	Vamos ter de celebrar sem a convidada de honra. Na verdade, organizamos esta reunio para Adam.
	E por voc e Beth, espero. Ouvi dizer que os pais se preocupam ainda mais com os filhos adultos.
 

	Quando as crianas eram pequenas e algum me dizia isso, eu ria e imaginava que estavam apenas tentando consolar-me. Hoje sei que  verdade.  Ele comeou a contar os filhos nos dedos.  Temos Patrick, que se nega a admitir que o casamento com uma boa mulher pode ser um grande passo em sua vida. Temos Connor, que adora praticar esportes radicais. Temos Tom, que felizmente est bem com Julie e as gmeas, mas que j nos deu muito trabalho com sua natureza aventureira.	*
	E tambm tm Adam  Meg apontou.
	Sim, temos Adam.  Ambos olhavam para ele. O aroma da carne temperada com alho, ervas e vinho branco pairava sobre o jardim, e Adam e Connor pareciam muito interessados em algum tipo de disputa fraternal.  Oh, no! A rvore no!  Jim murmurou.
	Que rvore?  Meg indagou confusa.
	Aquela!  Ele apontou para um gigantesco pinheiro. Connor desafiava o irmo para uma corrida at o topo, algo que fizeram dezenas de vezes durante a infncia.  Jeri, no os incentive!  Jim pediu em voz baixa, olhando para a jovem de vinte anos que devia ser sobrinha dele. Mas a moa no o ouvia.  Droga! Ela  pior do que todos os meus filhos juntos!
Jeri usava o relgio de Adam para marcar o tempo da prova.
	Muito bem, em seus lugares... J!
Todos os convidados pararam de falar para acompanharem a disputa. Adam escalava um lado
 
do tronco, enquanto Connor subia pelo outro, gil, apesar de mancar um pouco.
Como Connor, Adam sabia que tinham uma boa audincia. Diferente do irmo, j no sabia mais por que estava ali. Para Connor, a resposta era simples: diverso. Ele apreciava os riscos e a emoo de um desafio fsico, como se precisasse enfrentar a natureza e venc-la.
Adam admirava essa ousadia e at compartilhara dela no passado. Atualmente dedicava sua energia e fora para coisas mais importantes, mas era importante restabelecer a velha ligao. De todos os irmos, Connor era o que mais valorizava e apreciava.
E subir em rvores era timo! Todo mundo devia experimentar um dia. Nos primeiros minutos, no pensou em nada alm de tocar o ltimo galho e vencer o irmo. H muito tempo no se sentia to consumido por uma tarefa fsica.
Mas, de repente, ali estava ele, aproximando-se do tronco e pensando: "E se Amy acordar e eu estiver aqui? E se ningum a escutar? E se eu cair e sofrer algum ferimento srio? Como posso me expor a riscos quando tenho uma filha pequena que precisa tanto de mim? Devo ser maluco!"
O corao batia depressa e ele suava. S queria vencer a prova para encerr-la rapidamente e voltar ao cho antes que algo terrvel acontecesse.
Finalmente chegaram ao topo, Adam com alguns segundos de vantagem, mas a vitria no tinha o doce sabor do passado.
 Foi... divertido  ele disse ao irmo, tentando
disfarar a angstia.	.
 
Quando voltaram ao cho, alguns minutos depois, Adam olhou para Meg como fizera dezenas de vezes desde que a vira chegando. Devia ir falar com ela. Nem que fosse apenas para cumpriment-la e oferecer uma bebida. Afinal, ela sabia que j a vira ali, e tambm o observava com insistncia. No percebia que seria loucura permitir aquela... aquela qumica entre eles? No se deixaria envolver!
Jeri o abraou e deu os parabns pela vitria, e ele prometeu a si mesmo que no voltaria a olhar para Meg enquanto no estivesse pronto para ir cumpriment-la.
	Sabia que o homem era um atleta?  Jim perguntou com tom divertido.
	Eu j imaginava  Meg confessou, lembran-do-se do adolescente que havia deslizado por uma rampa de neve improvisada na ciclovia do parque.
	Ele passou por um perodo muito difcil, mas espero que possa ser mais feliz a partir de agora.
	E ele, o que espera da vida?  Meg murmurou como se falasse sozinha.
Nos ltimos dias, passara a ter a impresso de que Adam estava trancafiado em uma priso criada por ele mesmo, e que s um evento explosivo poderia derrubar aquelas paredes imaginrias. Subir em uma rvore com o irmo no seria suficiente.
Havia momentos em que desejava gritar com Adam, apontar que s ele poderia ser a soluo para o problema que criara. Em outras ocasies convencia-se de que o assunto no era de sua conta e decidia manter-se bem longe da vida emocional de Adam Callahan.
 
	Adam precisa de tempo  Jim comentou pensativo.  Ele j a viu aqui?
	Sim, mas ainda no falou comigo.
	V falar com ele.
	Oh, eu no sei...
	V at ele, Meg! No hesite. No espere. Tenha em mente que, com Adam, vai ter de ir alm da metade do caminho. Isto , se espera poder estabelecer um ponto de encontro com ele...
	E o que mais quero  ela respondeu com honestidade, sentindo-se confortvel ao lado do pai do homem que amava. Passara a confiar nele e em Beth agora que os conhecia, e era bom saber que o casal estava a seu lado.
	Diga a todos que a carne est pronta  Jim sugeriu.
	Mas no est...
	E da? Eles vo levar algum tempo para chegar at aqui com os pratos, e at l terei algo para servir.
	Quer dizer que devo usar o churrasco como uma desculpa para aproximar-me de Adam?

	Se precisa de uma...
	Obrigada, Jim.
Meg estava atravessando o jardim para ir ao encontro de Adam ao lado do pinheiro, quando ouviu a voz de Patty.
	Lamento o atraso, querida. Seu pai errou o
caminho.
Depois de trocarem abraos e beijos, Meg explicou:
	Chegaram a tempo para o churrasco. E ainda
podem saborear o aperitivo. Os pratos esto bem
ali, sobre a mesa.
 
s
	Otimo! Preciso mesmo de um pouco de sal.
	Sente-se bem, Patty?
	No consigo me livrar desse sentimento de instabilidade. s vezes estou bem, mas depois fico muito cansada... Deve ser a idade. Sabe como  esse perodo de mudana hormonal.
	Imagino. V comer alguma coisa. Voc est muito magra.
	E voc tambm no engordou muito desde que a vi pela ltima vez.
	Dizem que oferecer comida ou tentar convencer algum a comer  uma prova de amor...
	Meg, que coisa mais doce! Voc  a melhor enteada do mundo.
Patty a abraou novamente com os olhos cheios de lgrimas, e Burt a segurou pelo brao para lev-la at a mesa, dizendo alguma coisa sobre repor o sal perdido.pelos canais lacrimais.
	No cumprimenta mais os conhecidos?
A voz de Adam soou atrs dela segundos depois de Patty e Burt terem se afastado. Meg virou-se e encaru-o.
	Essa  muito boa! Estava cercado de tios, primos e vizinhos...
	Eles no mordem.        ,;

	Como posso saber? No fui apresentada a ningum.
	Tudo bem, voc tem razo.
	Ento, por que fingir que a culpa  minha?
	Porque o ataque  a melhor defesa. E estive pensando...
	Meu Deus! Espero que no tenha dodo muito.
 
	Quer parar com isso?
	Eu paro, se voc parar.
	Parar com o qu?
	No sei. No tenho ideia do que estamos falando.
Adam respirou fundo e decidiu tentar uma nova abordagem.
	No quer ver Amy?
	Ela j acordou?
	Espero que no. Ela precisa de duas horas de sono todas as tardes, e no faz nem trinta minutos que a coloquei no bero. Mas  to bom v-la corada, sem aquele tubo de soro no brao, que pensei em ir v-la e... Bem, talvez possa be-liscar-me para que eu tenha certeza de que no estou sonhando.

	 claro! E talvez no me considere uma ameaa enquanto Amy est dormindo.
	Meg, por favor!
Dessa vez sabia exatamente o que ele queria dizer.
	Qual  o problema? Por que no admite o que sente? No confia em mim, nem em meus pais, e esse o grande problema. Tem ideia de como isso me deixa furiosa? De como me sinto impotente? E como estar ligada a um detector de mentiras controlado por voc. Quando isso vai mudar, Adam?
	Meg...
	Acha que est sendo justo? Como posso construir um relacionamento com minha sobrinha, se sou constantemente observada? No percebe que
 
ela no vai confiar em mim ou em meus pais? Amy tem em voc um exemplo, um espelho, e ela pode sentir sua desconfiana. A propsito, meu pai e Patty esto voltando para a Filadlfia e...
	Meg Jonas! Ser que pode ficar quieta e me ouvir?
	Tudo bem, fale  ela concordou com o queixo erguido, disposta a ouvi-lo sem se deixar intimidar.
	Como ia dizendo, estive pensando, e acho que devemos encontrar um caminho para aumentar seu envolvimento na vida de Amy.
	O que quer dizer?
	Voc e seus pais podem sair com ela. Sozinhos. Que tal comearmos com uma tarde a cada quinze dias? Amy ainda no pode dormir fora, porque  muito pequena e passou por uma experincia traumtica que a torna mais sensvel a certas mudanas de ambiente e... Tudo bem, admito que estou nervoso e inseguro, mas quem no estaria?
	No costumo suspeitar de que as pessoas que conheo sejam seqestradoras.
	Eu nunca disse isso!
	Disse. H uma semana.
Ele a ignorou.
	Refiro-me aos temores, normais de um pai. Ela pode sofrer algum acidente" enquanto estiver com voc, e eu jamais me perdoaria por no estar presente, como no a perdoaria por no ter podido evit-lo, mesmo sabendo que no seria lgico culp-la.
	Lgico?  ela repetiu sarcstica.
	A paternidade no  lgica, Meg.  instintiva. Como todos os tipos de amor. E se no sabe disso...
 
	Oh, eu sei! Melhor do que gostaria... E a culpa  sua, Adam!  disparou, incapaz de conter a mistura de frustrao, angstia e ansiedade.
	Minha?
	Sim, sua! Sempre fui sensata, lgica... Meu pai me ensinou a pensar antes de agir. Ele sempre disse que devemos sentir, mas nossos sentimentos tm de ter um mnimo de lgica. E voc no faz sentido, Adam Callahan! Sabe de uma coisa? Acho que o odeio! Posso relacionar todos os seus defeitos, todos os motivos pelos quais no devo desejar uma aproximao maior. E ento as coisas acontecem e... e...
- Voc parece confusa.
	Oh,  mesmo? Pois diga-me, sr. Callahan, o que sente  diferente? Pode afirmar com toda honestidade que este no  o relacionamento mais confuso e difcil que j viveu?
	No  ele admitiu, tomado por emoes intensas e estranhas. O que estava acontecendo ali?
	E ento, qual  sua teoria? Devemos seguir a lgica, ou o corao?
	O corao...
A resposta soou distante. Meg percebeu que Adam retomava a luta com seus demnios internos, uma briga sofrida da qual era sempre excluda. Seria capaz de qualquer coisa para faz-lo falar sobre o assunto e pedir sua ajuda.
Mas ele no a incluiria em seus conflitos. Por isso decidira fechar o escritrio por um ms e viajar para San Francisco. Ajudaria os pais com a mudana, reveria velhos amigos... Precisava de
 
tempo e distncia para esquecer o amor que sentia por Adam. Se no podia fazer nada por ele, se no era capaz de conquistar sua confiana e arranc-lo daquele abismo de sofrimento em que mergulhara, ento devia desistir.
	Acho que Amy acordou  Adam comentou, inclinando a cabea na direo da escada.
	No posso dizer. Com todo esse barulho l fora...
	Ela est chorando. Deve ter tido um pesadelo.  E subiu saltando os degraus.
Meg o seguiu, mesmo sem saber se sua presena ainda era desejada. Quando entrou no quarto, Adam j se debruava sobre o bero com a testa franzida. Amy dormia profundamente, a expresso serena e relaxada.
	No entendo  ele sussurrou.  Juro que a ouvi chorar.  E tocou a lateral do pescoo da criana com a ponta de um dedo.
	O que est fazendo, Adam?
	Verificando a pulsao,  claro!
	No acha que isso  desnecessrio? Ela est bem, no?
	Sim, mas...  Erguendo o corpo, respirou fundo e balanou a cabea.  Eu... creio que  um reflexo. S para certificr-me. Mas... sim, ela est bem. E claro que est bem.
	Ela  linda.  Meg aproximou-se do bero sorrindo.  Tinha razo,  maravilhoso v-la assim, to corada e saudvel. Eu a amo, Adam. Lamento se no gosta de ouvir, mas...
	Quanto mais amor ela tiver, melhor.
 
Quando desceram, alguns minutos mais tarde, Adam e Meg no conversaram. Algo no estava bem. Meg decidiu que ele no havia imaginado o choro da filha. Apenas cometera um engano, o que era compreensvel com todo o barulho criado pela festa no jardim. Mas, por alguma razo, o engano assumia um significado profundo, e apesar da conversa que tiveram antes de subir a escada, ela se sentia mais distante que nunca de uma completa e verdadeira ligao com Adam Callahan.
 
CAPTULO X
___ /|ue vergonha!  Patty la-V]|fmentou-se apoiada pelo marido. Adam e Meg encontraram o casal na cozinha.  No estou me sentindo muito bem. Deve ter sido o molho de cebolas, porque estou enjoada... No quer ir se deitar no sof?Adam perguntou.
	Sim, obrigada. E Meg, pode me dar um copo de gua, por favor?
	 claro que sim.
Burt e Adam a levaram para a sala, onde ela se deitou no sof, e Meg chegou em seguida com a gua. Logo Patty recuperou a tonalidade normal, mas Burt estava preocupado.
	Temos de fazer alguma coisa, meu bem  ele dizia segurando a mo dela.  Adam, Patty precisa de um mdico.
	Talvez... mas sugiro que faa um teste de gravidez antes de mais nada.
	Um teste... Meu Deus!  Ela exclamou assustada, sentando-se no sof.  Ento... No pode ser! Tenho quase quarenta e cinco anos!
	No seria a primeira vez que uma mulher engravida nessa idade. No quer ter filhos?
 
	Oh, seria o mais maravilhoso milagre do
mundo!
Meia hora mais tarde, a suspeita de Adam se confirmava. Incapazes de esperar, Patty e o pai de Meg foram  farmcia mais prxima comprar um teste rpido, e depois de alguns minutos no banheiro, ela saiu para anunciar o resultado.
	Positivo! E a fita colorida ficou vermelha. Isso  bom?
	E timo  Adam garantiu.
Depois disso, a famlia Callahan decidiu que todos tinham um motivo a mais para celebrar. Por alguma razo, a felicidade de Patty incomodava Adam, como se o sentimento fosse injustificado. Talvez ela no soubesse o que a esperava.
	Sabe, Adam, s vezes fico realmente maluca. Cheguei a falar em raptar sua filha!  Patty contou radiante.
	Eu sei.
	Sabe? Meg contou que...
	Eu ouvi quando vocs conversavam no telefone.
	Ento sabe que ela tentou me convencer a abandonar essa ideia maluca. E depois de t-lo conhecido, posso garantir que nunca mais pensei nisso. No  verdade, Meg?
	J disse tudo isso a Adam, mas ele no parece estar interessado.
A mulher era uma filha leal. No estava comendo, parecia exausta, mas fingia uma felicidade intensa s para no arruinar o grande momento do pai e da madrasta.
Distrado, Adam apreciou a grandeza de tal qua-
 
lidade. Mas, emocionalmente, a concluso no podia toc-lo. E quando ela anunciou que estava indo embora, cerca de uma hora mais tarde, nem tentou det-la. Era como se houvesse perdido toda a energia.
	No vai fazer nada?
A voz de Burt o arrancou do estranho transe.
	Do que est falando, sr. Jonas?
	Meg vai embora. V atrs dela, converse...
	No... Acho que no.
	Nesse caso, vou ter de'decidir se o mato aqui mesmo, ou se o arrasto at ela e o obrigo a confessar seus sentimentos usando a fora fsica. Francamente, Adam! Meg no vai esperar. Conheo minha filha. Se no acreditar na possibilidade de construir algo de positivo a partir do que sente, ela lutar com todas as foras para deixar de sentir. E essa luta j comeou. E se deve abandon-la, Meg precisa ouvir as palavras de seus lbios.
Era estranho, mas no estava surpreso com o que ouvia. O pai de Meg conseguira penetrar em sua alma e desnud-la, mas isso no tinha importncia. Nada mais importava.
	Odeio o que sinto  disse.
	Por qu?	*'
	Porque no confio nesse sentimento. No confio em mais nada.
	Por que no?
	Porque  mais seguro desconfiar. E falando em segurana, ser que pode fazer sua esposa acalmar-se um pouco? Talvez ela no saiba, mas
 
uma primeira gestao nessa idade  perigosa. No suporto testemunhar toda aquela felicidade!
	Puxa, voc est pior do que eu pensava. Olhe
s para ela, Adam! Acha mesmo que vou estragar
um momento to perfeito s porque ele pode no
durar para sempre? No, meu rapaz! Justamente
por saber que os momentos no so eternos,
aprendi a viv-los intensamente. Patty est gr
vida, e esse era seu maior sonho. Um sonho que
est se realizando. E os bebs so a mais pura
forma de felicidade que conheo. Tive duas filhas,
e mesmo depois de todo  sofrimento causado por
Cherie, nunca lamentei t-la trazido ao mundo.
Seus pais certamente sentem a mesma coisa pelos
quatro filhos, como voc sente por Amy, mesmo
depois de tudo que passou com ela.
	 claro...
	Quer mesmo perder algo que pode ser precioso em sua vida, antes mesmo de experimentar essa alegria, s porque ela no vem acompanhada por um certificado de segurana?
	Eu... no sei. Sua pergunta  interessante, sr. Jonas. E admito que no me permiti consider-la.
E de repente, Adam teve a sensao de que uma espessa cortina de fumaa se dissipava a sua volta, transformando a nvoa em um brilhante dia de sol. O que queria e o que era possvel iam aos poucos se unindo para formar um todo.
	Ento considere-a. Pense bem, e depois me conte o que sente por minha filha e o que pretende fazer com esse sentimento.
	No preciso pensar  Adam respondeu, to-
 
mado por uma sbita energia e por uma forte determinao.  Ser que pode me dar licena? Preciso ir atrs de Meg.
Meg estacionara o carro longe da casa dos Cal-lahan. Sentia-se grata pela caminhada, porque o exerccio fsico a ajudaria a pr os sentimentos em ordem. Afinal, tomara uma deciso, e encontraria foras para coloc-la em prtica. Adam sabia o que sentia por ele... No havia escondido as emoes nem por um minuto. E sabia que ele poderia ter sentido algo por ela... sentia... Sim, Adam tambm experimentava sentimentos profundos, mas recusava-se a segui-los, e era isso que a enfurecia. Bem, se ele no estava disposto a correr riscos para construir algo de positivo a seu lado, no ficaria por perto para ser ferida e magoada.
Um ms na Califrnia no seria o bastante, mas era o mximo de que podia dispor. Encaminharia os clientes para alguns colegas da rea, mesmo sabendo que perderia dinheiro com o afastamento, mas no podia simplesmente adiar decises que envolviam as vidas de outras pessoas. E aquela seria a ltima vez que choraria por causa de Adam!
	Por acaso j passeou num, Corvette vermelho
numa tarde quente de primavera?
Oh, no! Estava tendo uma alucinao. No podia ser Adam!
Confusa, virou-se e viu que era ele. O sorriso radiante inflamou sua fria.
	No, e voc nunca teve um Corvette. Agora
vai comear a roubar carros?
 
	 de Connor. Ele me emprestou o automvel.
	Que bom para voc. Bem, se me der licena, meu carro est parado logo ali e...
	Meg, sei que mereo esse tratamento hostil, mas...
	Voc merece coisas muito piores!

	Talvez, mas ser que podemos conversar? Quero lev-la para um passeio, talvez um piquenique regado a champanhe...
	Um piquenique? Champanhe?
	Tenho tudo no carro. Mame no vai se importar quando perceber que tirei algumas coisas da mesa, e a garrafa estava no meu carro. S tive de transferi-lo para o de Connor.
	Costuma carregar champanhe no carro?
	Comprei a bebida h algumas semanas,
quando pensei que teramos uma celebrao. In
felizmente, desisti dela. Ou melhor, decidi que no
queria comemorar com voc.
	Oh, e agora resolveu que sou uma companhia
suportvel, afinal?
Ele riu.
	Meg, estava enganado sobre muitas coisas.
Ela suspirou.
	Por acaso vou me arrepender por ter aceito
o convite?
	Prometo que no.  Connor abriu a porta do passageiro e esperou que ela se acomodasse para beij-la nos lbios.  Meus pais conseguiram me fazer enxergar parte da verdade, e seu pai concluiu o trabalho com brilhantismo.
	Acho que estou perdendo a linha de raciocnio
 
aqui. Vamos recapitular, sim? No episdio anterior da novela Meg e Adam, Adam admite que merece ser castigado.
	Vamos voltar a episdios ainda mais antigos. Adam perde a capacidade de confiar, porque tem a impresso de que tudo que  importante para ele  destrudo, porque at as boas notcias tm aspectos negativos, e porque a mulher maravilhosa que entrou em sua vida pode no ser aquilo que parece.
	Acho que perdi esse captulo.
	Quer que eu conte mais sobre o que aconteceu nele?
	Sim, por favor.
Adam seguiu sem pressa para o parque onde haviam estado com Amy, poucos quilmetros distante da casa dos Callahan. L, depois de providenciar o piquenique, ele retomou o assunto.
	E como se eu houvesse estado rta priso  comeou, deitando-se sobre o cobertor e puxando a cabea dela sobre seu peito.  Vivi cercado por paredes de medo e desconfiana.
	Eu percebi.
	Tudo comeou motivado por razes bem concretas, pelo medo de perder Amy, e depois comeou a crescer e tomar conta de mini. No confiava em mais ningum, em mais nada, muito menos em meus sentimentos e julgamentos. Ontem minha me sugeriu que eu passasse a me nortear pelo raciocnio, no pelo corao, e agora entendo o que ela quis dizer. Meu corao estava cheio de medo. Racionalmente, sempre soube que posso
 
confiar em voc. E devo... Mas o instinto insistia em seguir um padro anterior criado pelas perdas sucessivas, pelas decepes frequentes... Meg acariciou o rosto do homem que amava.
	Devia ter entendido o que estava sentindo. Em vez disso, fui impaciente, intolerante...
	Tinha todo o direito de rebelar-se contra o tratamento injusto que estava recebendo. Sei que no sou digno do seu amor, mas... acha que algum dia poder me amar como eu a amo?
Quando entrara no carro de Connor, tudo que esperava era um comeo. Um primeiro passo. E Adam a surpreendia entregando seu corao. O mnimo que podia fazer era retribuir com a mesma honestidade.
	Talvez um dia... como o de hoje  respondeu
sorrindo.  Oh, Adam, como pode ser to est
pido? Ento no percebeu que o amo desde o dia
em que o conheci?
 
EPLOGO
E
u me lembro deste lugar!  disse   uma   voz   brilhante atrs de Adam.
Estavam entrando na garagem subterrnea de um edifcio muito antigo, e ele olhou pelo espelho retrovisor sem esconder o espanto.
- Tem certeza?
No podia ser! Dois anos haviam se passado desde que Amy sara do hospital com quinze meses de idade. Agora ela estava com trs anos e meio, cabelos escuros e encaracolados e olhos muito vivos e atentos. De qualquer maneira, ele e Meg nunca falavam sobre a doena. No era necessrio. Tudo havia sido um pesadelo que ficara no passado, soterrado pela felicidade do presente.
Seria possvel que Amy;-ainda tivesse alguma recordao do tempo que passara ali? ,  E claro que sim, papai! Mame me trouxe aqui para ver os bebes. Ela disse que eu devia comear a praticar, porque ser irm mais velha nem sempre  muito fcil. Foi h muito tempo. Talvez tenha esquecido.
 Oh, sim  ele assentiu, aliviado com a ino-
 
cncia da resposta. Amy no se lembrava do horrvel perodo em que correra risco de vida, e chamava Meg de me desde que aprendera a pronunciar a palavra.  Tem razo, voc conseguiu um certificado.
O retngulo de papel carto amarelo ainda estava preso na porta da geladeira por um m em forma de joaninha. Era mais um dos muitos adereos que alegravam a casa confortvel que ele e Meg haviam comprado no ano anterior. Meg levara Amy para participar de uma aula do curso de gestantes dedicada aos irmos mais velhos, e a menina voltara para casa cheia de histrias para contar. Trocara a fralda de uma boneca, dera a mamadeira ao beb de plstico e at visitara o quarto onde a me ficaria.
Amy passara cinco meses esperando ansiosamente pela chegada do beb, e agora que ele era uma realidade concreta, a pobrezinha enfrentava dificuldades para entender o processo.
	O beb saiu da barriga da mame? De verdade?
	Sim, querida, no meio da noite, quando voc estava dormindo.
E agora mame est no quarto dela no hospital?
	Sim,  isso mesmo.
	Como vamos encontr-lo? No me lembro de qual boto devemos apertar no elevador, e voc no veio conosco quando estivemos aqui vendo os bebs.
	Mas eu trabalhava neste hospital, querida.
Sei que boto devemos apertar para encontrar a
mame e o beb. E o de nmero seis. Este aqui.
Pode apert-lo para mim?
 
Amy ergueu-se na ponta dos ps e esticou o dedo, assumindo a tarefa com senso de responsabilidade surpreendente para sua idade.
Adam trocara o hospital por um consultrio particular de pediatria. Os negcios iam to bem, que estava prestes a aceitar um segundo scio. Meg tambm encontrara um associado para o escritrio de advocacia logo depois do casamento, dois anos antes, quando tomara a deciso de passar mais tempo em casa e# cuidar de Amy.
A menina no retornara  creche, nem mesmo depois de curada. Com Beth e Patty disputando o privilgio de cuidar da neta, Meg acabara tendo de conformar-se com os finais de tarde e as primeiras horas da manh, quando no estava no escritrio.
O nascimento da filha de Patty pouco antes do segundo aniversrio de Amy no causara grandes mudanas, nem a presena exaustiva das gmeas de Tom e Julie, que passaram a visitar Jim e Beth com mais frequncia. Havia espao para todos no corao dos adultos.
E como a primeira gerao dos Callahan fora composta por meninos, ningum se importava com a inverso do padro. At aquele momento, Adam tinha duas sobrinhas, uma filha, e uma meia cunhada que comeava a dar os primeiros passos com firmeza espantosa.
E na noite anterior, Meg dera  luz um menino
para coroar a felicidade da famlia. James Burton
Callahan mamava serenamente quando Amy e
Adam entraram no quarto. A cena era emocionante.
Meg sorria, apesar do cansao, e uma luz in-
 
tensa brilhava em seus olhos. A luz da vida que se renovava naquela pequenina criatura.
Esse  meu irmo?Amy perguntou enquanto se aproximava da cama.  Mame, ele  lindo!
	Tem razo  Adam concordou com a voz embargada.  Obrigado, meu amor.  E incli-nou-se para beijar o rosto de Meg e colocar em seu pescoo o colar de esmeraldas que levara no bolso da cala.
	No preciso disto  ela protestou.  No sabe que este  o dia mais feliz de minha vida?
	Sim, eu sei, mas precisava de alguma coisa para expressar minha gratido.
	Por que, meu amor?
	Por tudo que tem me dado desde o dia em que nos conhecemos. Por James, pelo nosso casamento, por ter recuperado a capacidade de acreditar em finais felizes... e pela vida de Amy.
	No me agradea por Amy. Somos ns que devemos agradecer a ela por estarmos juntos. Sem Amy, sem a terrvel doena que a trouxe a este hospital, sem o sofrimento que suportamos, nada disso teria acontecido.   "
Os dois olharam para a menina corada e saudvel, e ela suspirou resignada.
	Tudo bem, vo em fre,nte  disse.  Eu
no me importo.
 No se importa com o qu, querida?  Adam perguntou curioso.
	Com mais um beijo entre voc e mame. J
estou acostumada. Voc a beija o tempo todo!

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